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Primeiros Passos

Por Toda Letra em 9 de maio de 2014

Por Susan Blum*

Foto: Chara Rial Blog

erste Schritte

Abro a porta e a vejo. Sentada no sofá. Ela me vê e ri.

Vejo que ela se levanta sozinha e vem andando até mim. Andando! Sozinha!

Os primeiros passos!

Os primeiros passos sem nenhum apoio!

Sem nenhuma ajuda.

Fico apreensiva, mas ao mesmo tempo MUITO surpresa e alegre!

Que delícia!

O sorriso dela corre até mim. Que felicidade.

Sinto um amor enorme por este serzinho frágil que tem uma relação de vidas comigo. Sinto muita ternura e muita felicidade. Vou até ela e a abraço forte.

O amor explode precipitando-se pelo ambiente.

Sinto o aligeirar de lembranças e recordações.

Depois de um mês difícil com altos e baixos. Após a cirurgia, as complicações, as visitas ao hospital, os cuidados extremos de todos da família.

Ah… os primeiros passos. Um símbolo da busca da independência.

Independência que é conquistada com tanta luta, esforço e sacrifício.

Assim, compreendo quando ela fica chateada quando queremos ajudá-la em tudo. Mas ela tem que entender que é uma espécie de retorno de amor.

Quero dar a ela – de forma mínima – um pouco de tudo que ela fez por mim.

As intermináveis noites e madrugadas, com a filha no colo, sem conseguir respirar por causa da maldita bronquite asmática. A mãe carregando a filha e andando pela casa, para ajudar a entrar o ar.

Como eu queria pegar ela no colo e sair por aí com ela, para lhe dar um pouco de novos ares.

Minha mãezinha querida está andando sem o andador!

Compreendo então porque quero tanto ajudá-la. Fico imaginando a alegria dela com os meus primeiros passos. E hoje, o pequeno grande milagre: os primeiros passos.

E o primeiro “passeio” que não foi para ir ao hospital ou a exames médicos. Ela me levou para a faculdade. E me senti como a Susi pequena que era levada pela mãe até o Grupo Escolar Tiradentes.

Quem é mãe? Quem é filha? Apenas conceitos. Somos eu, ela e minha irmã.

O clã feminino da família. O coração pulsante da base familiar! Meus amores.

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Bandido bom é bandido morto

Por Toda Letra em 16 de março de 2014

por Susan Blum*

Desde pequena sempre escutei um “ditado”, seja pelos meus pais, seja na escola: “Não faça aos outros, o que não querem que te façam!”

Não quero ser traída, logo, não traio. Não quero que me batam, logo, não bato. Não quero que queimem minha casa, logo, não queimo a casa de ninguém.

Já falei sobre os atos de violência em uma postagem no meu blog, verás que um filho teu não foge à luta.  NÃO sou a favor da violência. NUNCA!

Já comentei também sobre Gentileza. Basta ler sobre MITO DE PROCUSTO

Mas parece que o ser humano está se transformando em animal, querendo matar, bater, “fazer justiça” com as próprias mãos. Não sou religiosa (tenho as MINHAS convicções), mas percebo que muitos “cristãos” são a favor desta “justiça”.

O meu receio é que cheguemos a tal ponto que: se antes tínhamos medo de ladrões e assassinos, se antes tínhamos medo da polícia (muitas vezes violenta), hoje devemos ter medo de TODA e qualquer pessoa. Pois podem me acusar de algum delito amanhã “É ela! Foi ela quem roubou meu carro!” e o povo me lincha em plena rua.

É esta barbárie que queremos para a humanidade?

Tenho que me corrigir. Sou humana, logo falho. Eu escrevi lá em cima que o ser humano está se transformando em animal. Perdoem-me, animais! Vocês estão dando belos exemplos que deveríamos seguir. Volta e meia vemos notícias de animais que adotam filhotes de outros, ou que ajudam outros animais. Um pequeno exemplo que vi hoje: Hipopótamos salvam gnu de jacaré.

Mas a questão é: “Bandido bom é bandido morto?” Você realmente acredita nisso?

Então temos que matar você. Cuidado! Pois quem aqui (e me incluo) NUNCA ficou com algo que não lhe pertencia? Com certeza algum dia, em algum momento, você já roubou algo! Desde pequenos objetos, até o tempo ou paciência de alguém.

Repense seus preconceitos!

Ah! Antes que venha alguém dizer: “se você gosta de bandido, leve para casa” (uma frase batida ridícula de quem não pensa sobre o está falando!). Sou a favor das baleias, dos animais abandonados, de salvar as florestas, enfim… de muitas causas. Mas óbvio, que não levo para casa baleias, cachorros e gatos abandonados, florestas. Por favor, saibam argumentar! Se você é a favor do título da postagem, me dê ARGUMENTOS para isso. Podemos então conversar neste espaço virtual.

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*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Perder pode ser bom!

Por Toda Letra em 19 de agosto de 2013

Meu apartamento está bem cru. Não tem sequer o básico de móveis. Então, em uma tentativa de preencher um pouco o vazio, hoje de manhã fui plantar umas sementes (que ganhei de um casal de alunos) em um vaso que já existia na sacada. O vento forte atrapalhava um pouco. Peguei o pacotinho plástico com as 4 sementes e derrubei uma em minha mão, pensando em deixar as outras para mais tarde, quando visse que vingaria. O vento arrancou o saquinho de minha mão. Ele saiu voando. Perdi 3 sementes, e só a que estava na minha mão ficou. Plantei com carinho e cuidado (como procuro fazer com tudo na vida).

Fiquei refletindo sobre a perda. Não aprendi a perder. Detesto perder coisas, mas principalmente amores e amizades. A morte não é algo com que lido facilmente. O abandono me é uma sensação terrível.

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Mas, apesar de tudo, com o tempo consigo lidar com tudo isso. O querido e maravilhoso tempo (tão temido por sua fatalidade) me ajuda a sentir menos dor.

Porém, há algo que não consigo lidar MESMO: o não concretizado.

Sabe quando você conhece alguém muito bacana e percebe que pode sair dali uma GRANDE amizade ou até mesmo algo maior? Mas, então, algo atrapalha. Um mal entendido, um instante errado e tudo se perde. Sempre tento recuperar, pedir desculpas, tentar conversar. A dor maior é quando percebo que a outra pessoa também sente o mesmo, porém não admite novos contatos. Daí eu tenho que aprender com o vento de hoje. Ele leva de forma abrupta as possíveis flores. Só me resta ter esperança de que caia em solo fértil e que nasçam mais flores de carinhos e cuidados.

É. Perder não é tão ruim assim. Mas ainda tenho muito a aprender.

Sejam felizes! Amem! E digam aos outros que os amam. Se eles não lhe amam e não lhe querem, o problema não é seu. Mas se deixa de dizer o que sente, ficará com isto guardado. E, guardado, acabará apodrecendo e morrendo em vez de possibilitar outros nascimentos.

Disperse seu amor. Vale a pena!

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

O Haiti NÃO é aqui!

Por Jess Carvalho em 3 de junho de 2013

Um dos meus sobrinhos é estagiário em uma construtora. Como sabem, recebemos em Curitiba diversos haitianos que se refugiaram aqui no Brasil. E eles vieram para vários campos de trabalho, sendo um deles a construção.

Meu sobrinho me relatou que cinco deles estão ali. No início eram rápidos, bons, espertos e fantásticos.

Foto: Focus Missions

Foto: Focus Missions

Porém, algumas saídas com os “brasileiros” da obra foram suficientes para que ficassem desleixados, relapsos e preguiçosos. O que aconteceu?

Os “colegas trabalhadores” os iniciaram na cultura brasileira: “Não precisa fazer tão bem!”, “Não seja tão rápido”, “Você ganha o mesmo de qualquer forma!”.

Ora, tenho falado bastante sobre a meritocracia para os professores.

Fez? Fez bem? Recebe melhor que outros que nada fazem ou fazem mal feito. Se assim fosse (em todo e qualquer emprego), os haitianos teriam mudado de comportamento?

Vejam outro exemplo baseado no que ouvi, tempos atrás, dentro do ônibus (em uma segunda-feira de manhã): uma mãe e uma filha estavam no Expresso Campo Comprido (que pego em média 4X ao dia).

- Pois é, mãe. Os vizinhos de baixo reclamaram do barulho que eu estava fazendo com meus colegas. Só porque era meia-noite.

- Mas filha, você tem que tomar cuidado! (e eu feliz em ouvir isso, pensando: a mãe vai ensinar a filha a ter respeito com os demais).

- Eu sei, mãe. É diferente do outro apartamento que eu tava, né? Lá eu ficava até tarde e ninguém ligava porque era ap pequeno, cheio de estudantes no prédio, que fazia barulho até tarde. Mas este é de “família”. Não dá.

- Então, filha. Faz silêncio! Você não pode perder este aluguel barato, com ap maior que o outro! (neste momento quase arregalo os olhos. Quer dizer que a mãe na verdade está pensando só na filha?). Ela continua: – Vai que alguém reclama para o dono do ap e ele para de alugar pra você?

E assim continua a conversa delas, mostrando claramente que a mãe pouco se importa com a filha fazendo barulho. Porque afinal, o risco é perder o apartamento. Logo, que os outros se lixem, desde que não atrapalhem a vida da filha. Que “belo” ensinamento esta mãe está dando para a filha!

É incrível como este comportamento de “se eu estou bem, o resto não me interessa” impera. Ando a pé e vejo muitos motoristas que correm pelas ruas nunca dando chance da gente atravessar; sobem nas calçadas com velocidade, sem cuidar com os pedestres; viram nas ruas sem fazer o sinal de luz que vão entrar. Lombadas elevadas? Acho que eles pensam que é “gangorra” e passam correndo.

Ou então os pedestres, usuários de ônibus: entram pela porta 3 e ali permanecem, mesmo sabendo que muitos outros tubos virão e que eles terão que descer pela dois ou quatro. Atrapalham a entrada de todos e ainda ficam reclamando de quem quer entrar porque viu que tem lugar (pelo menos um pouquinho) lá no início ou final do ônibus.

Gente que NÃO levanta para os idosos, e estão sentados no lugar marcado deles.

Outro exemplo são as benditas câmeras para ver os bandidos em ação. Achavam que isso intimidaria. Hoje já sabem que os bandidos estão cada vez mais ousados e violentos. Os bandidos se arrependem? Não. Só de terem sido pegos pela polícia.

Esta câmera deveria ser o olho interno da consciência. Não interessa se não há ninguém olhando. EU sei que não devo fazer tal coisa. Interessa que EU sei se estou errando ou acertando.

NÃO sou santa. Tenho meus defeitos. Por vezes não tenho paciência com minha mãe, tenho raiva de meu irmão, tenho mágoa de algum ex. Isso tudo EU tenho que trabalhar. Todos nós temos o poço de fundo de quintal, bem tampado com belos vasos de lindas e cheirosas flores, mas no qual jogamos os cadáveres putrefatos dos defeitos. Temos que nos auto-observar e mudar.

Voltando ao assunto do barulho com vizinhos, temos o caso recente do homem que matou o casal de vizinhos e se matou depois. Por causa de quê? Por causa de barulho!

Estamos presenciando uma geração de egos infantis. Pessoas que não têm resiliência alguma. Choramingam: “Eu quero isso e quero que me dê AGORA!”.

Uma geração de pessoas que até têm sonhos, mas que desistem rapidamente deles ao menor sinal de dificuldade. Que não correm atrás das coisas, que querem tudo na mão. Que não querem TRABALHAR pelas coisas.

E assim retornamos aos haitianos. Eles estão lutando por uma vida melhor. Mas o que estamos ensinando para eles?

Qual a cultura do brasileiro? Faça mal feito, faça devagar, ou nem faça. Seja egoísta. Só pense em você!

Incrível a diferença. Não. O Haiti NÃO é aqui. Porque se trabalhássemos como os haitianos, teríamos mais aprendizagem. No Haiti há um ditado: “Nou lèd, nou La!” – que significa “somos feias, mas estamos aqui”.

Mostrando a importância do ser humano independente de padrões de beleza. Uma pena que os brasileiros sejam MUITO feios por dentro, e que só se importem consigo mesmos. Teriam muito a aprender com os haitianos.

Espero que este texto truncado sirva como um mínimo de reflexão para os próximos 15 dias.

Um abraço, Susan.

*Para maior conhecimento recomendo a leitura do blog que fala da história do Haiti:

http://giramundo-cirandeira.blogspot.com.br/2010/01/haitianos-literatura-e-artes-plasticas.html

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

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Vai um comprimido de Felicidade Clandestina?

Por Toda Letra em 13 de maio de 2013

“No Egito, as bibliotecas eram chamadas ‘Tesouro dos remédios da alma’. De fato é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.” Jacques-Bénigne Bossuet  (Biblioteca Marianske Namisti, em Praga. (imagem e texto repassados a mim pelo meu amigo Lucio Esper)

por Susan Blum*

Para quem não sabe, sou formada em Psicologia antes de ter feito a faculdade de Letras. E sempre lembro do que alguns membros da família me falavam, ao me ver lendo Kafka ou Cortázar: “fácil fazer esta faculdade, não? Você só precisa ficar lendo!”.

No início eu tentava mostrar que a “leitura” não era tão fácil assim, uma vez que eu não estava apenas navegando suavemente na superfície do texto, mas sim procurando mergulhar nas profundezas turbulentas e traiçoeiras de significados, significantes, simbologias etc.

Um dos pensamentos que eu tinha: “se eu conseguir curar o câncer com a literatura, eles vão dar valor”. CLARO que não chega a tanto. Mas, em 2008, eu tive a grata surpresa de ver um cartaz na UFPR. Fui até a Universidade Positivo e assisti (com tradução simultânea) às falas de duas mulheres, que me interessaram MUITO.

Mantive contato com um colaborador delas por um tempo, pois pretendia trazer esta literatura terapia para Curitiba. Cheguei a dar um breve depoimento para a Linha Mestra número 13.

Ainda acho que a literatura nos ajuda nos insights e epifanias. Tal como a menina de Felicidade Clandestina, eu me refugiava nas páginas das fábulas de La Fontaine ou nos contos de Poe, quando menina assustada com a realidade da vida.

O gato preto, o poço e o pêndulo, o corvo (Poe), todas as fábulas (como o velho e a morte) e os contos dos irmãos Grimm, me ajudaram a transpor muitos obstáculos da vida.

Continuo lendo e tentando decifrar os abismos marinhos das

letras-peixes, das enguias-linhas e das estrelas-metáforas do mar.

Quem sabe um dia eu entenda porque a literatura está curando meus cânceres diários de baratas esmagadas, minhas úlceras de coelhinhos não vomitados, minha cegueira branca, minhas angústias de acordar como um inseto, minha impotência frente aos lobos maus, minha paranoia de agrimensor do Castelo, minha psicose de Iluminado e minha sede de vingança do Conde de Montecristo.

Enquanto eu matar estas doenças através da literatura, estarei salva de meu suicídio ignorante.

Então, peço licença, mas agora está na hora do meu Rivotril Steinbeck (Homens e Ratos) que ganhei de uma querida nova amiga.

Um abraço e até daqui a 15 dias.

p.s. Aproveito para sugerir as leituras: Fadas no Divã (Corso & Corso);  A Psicanálise dos Contos de Fadas (Bruno Bettelheim) e O lobo mau no divã (Laura James). 

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

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Curitiba surrealista

Por Toda Letra em 2 de abril de 2013

Susan Blum*

Dois anjinhos sorridentes passam por mim na altura da janela do Expresso.

Este fato me desperta o olhar. A curiosidade daquela menininha que perguntou ao pai o que o gato queria saber. Aquele. Cuja curiosidade o matou.

Percebo então que uma oncinha cruza com ursos polares, em um jardim multicolorido de rosas brancas, girassóis mais que amarelos, lilases, orquídeas, flores miúdas azuis. Este cruzar lento entre os animais, bem pacífico, intrigaria Darwin.

Variadas pizzas verdes, marrons, roxas – com ou sem a borda da catupiry – também rodopiam pelas ruas, fazendo inveja a qualquer político corrupto.

Já Kandinsky ficaria encantado com as bolinhas vermelhas, as listras azuis, os xadrezes verdes, os amarelos explosivos em tufos. Tudo em uma mistura geométrica desordenada.

Um ou outro preto ainda teima em aparecer. Funéreo, lúgubre, insalubre, fúnebre, para nos fazer lembrar da Curitiba provinciana.

Só não vi nenhum branco. Claro! Puro e virginal? Nos dias de hoje? Nem pensar!

Mas… espere! Quase isso. Olha lá! Sinto como se tivesse penetrado na tela de Meia-noite em Paris. Sim. Paris. Século XIX.

É. A chuva em Curitiba nunca mais será a mesma!

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

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Coluna da Susan 2: Dando o Braço

Por Toda Letra em 18 de março de 2013

Susan Blum*

David e Alex. Linhas cruzadas na grande teia que é São Paulo.

Alex está saindo de casa, quase meia-noite, e dá um tchau rápido para a mãe que está deitada na cama, lendo um livro de Robert Louis Stevenson. Ela pede que ele se cuide, pois o perigo ronda lá fora. Alex pega seu carro e vai para uma festa, para se divertir com amigos e beber.

O tempo passa. O perigo ronda lá fora.

David acorda bem cedo, toma o café que a mãe lhe prepara. Enquanto falam de seus desenhos e do serviço que ele faz: limpa vidros. Para economizar, ele vai de bicicleta até o trabalho. A mãe de David lhe recorda de uma animação Disney que ele gostava muito quando criança: Pateta no trânsito.

O tempo passa. O perigo ronda lá fora.

Alex sai da casa noturna após três doses de vodka. Dá carona a um amigo e fica brincando no trânsito de final da madrugada. Passaram das quatro horas. Grita, atropela os cones da rua, provoca outros motoristas.

O tempo passa. O perigo ronda lá fora.

David vem com a bicicleta, entra na faixa de ciclismo e até chega a perceber o carro que vem rapidamente. Mas não tem tempo de desviar. Não lembra de mais nada.

Alex sabe o que fez. Mas não para para socorrer. Leva o amigo para casa. Ao ir para a sua, joga o braço (que poderia incriminá-lo) em um rio próximo. Chegando em casa, a mãe vê seu estado. Pede que ele se entregue.

Como pensa que já passou muito tempo, não terá vestígios do álcool. Vai na delegacia e se entrega. Mas se recusa a fazer o teste de bafômetro. Os policiais se informam do ciclista ainda vivo no hospital, porém sem o braço. Alex os acompanha no trajeto que fez, na “busca” do braço. Dá o braço a torcer e acaba confessando que havia jogado o mesmo no rio.

Apesar de uma busca feroz para correr contra o tempo. Tempo que passa, com perigo de perder o tempo hábil de reimplante, os bombeiros e policiais não encontram o braço.

David perde um braço. Alex perde o respeito de todos. Um limpador de vidros, um estudante de psicologia. Um ciclista, um motorista. Um trabalhador de família simples. Um estudante de família “boa”.

O tempo passa. O perigo ronda lá fora.

Um fugiu (dizendo que foi por medo de represálias). Um ficou (sem braço).

Um não teve ética. Outro teve ética por todos nós. Pois fez algo que eu ainda não consigo fazer… Ele perdoou Alex. Não sei se algum dia Alex se perdoará.

O tempo passa. O perigo ronda aqui dentro.

p.s. crônica baseada em fatos, mas com fios de conexão bem ficcionais. Caso queiram conhecer o vídeo citado: 

 

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Celin está com as inscrições abertas para o curso de criação literária

Por Toda Letra em 12 de março de 2013

O Centro de Línguas e Interculturalidade (Celin) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) está com as inscrições abertas para o curso extensivo de criação literária com ênfase em leitura e interpretação de textos. Com edições desde 2008, ministrado pela professora Susan Blum (mestre em estudos literários e autora do livro de contos “Novelos Nada Exemplares”),  o laboratório de texto se propõe a todos que desejam desenvolver a criação literária e melhorar a sua interpretação de textos.

Para Susan Blum, o texto pode ser melhorado sempre. “O processo de escrita é 90% transpiração e apenas 10% inspiração”, afirma.

A professora Susan Blum diz que se discutem os formatos e escolhas dos textos dos grandes escritores, mas que em suas oficinas busca fugir do padrão de trabalhar a leitura de romances, por seus alunos já se mostrarem “bons leitores”. “Procuro trabalhar mais a criatividade, buscando outros olhares, ou seja, uma visão diferenciada em cima do comum e corriqueiro”, afirma Susan.

Segundo Susan, dos vários alunos que participaram e participam do curso, muitos entraram na faculdade de Letras, outros ganharam concursos e até publicaram obras. “Desta vez o objetivo, além do mesmo de todas as edições que é criar – ou seja, ESCREVER textos ficcionais – é saber LER e interpretar textos de grandes autores”, antecipa.

Escrita sem segredos

“A troca entre os alunos sempre é rica e todos aprendem algo (mesmo que seja aprender a duvidar e pensar)”, conta Susan.

O curso se destina a toda e qualquer pessoa que goste de ler e que gostaria de escrever , é eminentemente prático (com tarefas de casa de escritas) e participativo (sugestões e críticas dos textos dos colegas).  ”Independente de a pessoa querer ser um escritor algum dia, poderá ter contato com textos literários, perceberá como se faz a escrita diferenciada de uma literatura de uma escrita qualquer (como uma lista de compras), terá uma interpretação redimensionada pelo olhar dos outros, compreenderá a necessidade de se saber criticar e receber críticas”, encerra.

As aulas acontecem sempre às quarta-feiras, das 19h às 22h, no Celin da Rua XV de Novembro (Centro), e as informações sobre matrícula e detalhes podem ser acessadas aqui.

Coluna da Susan 1: Tecendo as letras

Por Toda Letra em 4 de março de 2013

Susan Blum*

Convidada a escrever quinzenalmente para a Toda Letra, aceitei prontamente, pois um dos grandes prazeres que tenho na vida é escrever. Pensei em iniciar com um pouco de reflexão.

TECENDO as letras

Texto, segundo Barthes em seu O prazer do texto, “quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia” (Barthes, 2004, p. 74/75).  As minhas tecituras começaram cedo, com o Apólogo de Machado de Assis, passando pelos galos tecendo a manhã de João Cabral, costurando os botões em greve da Rita Apoena, alinhavando a moça tecelã de Marina ou Penélope de Dalton. Enfim, são tantos fios inspirados por Aracne, que fica difícil escolher algum para o meu texto. Gosto das histórias sobre as parcas que posso ver como metáfora da escrita: criação, desenvolvimento/destino e a “morte” do MEU texto para uma ressurreição no olhar do leitor que passa a ser novo dono do texto, tecendo com sua bagagem pessoal. Ou o fio de Ariadne que vai nos conduzindo no labirinto das diversas leituras/caminhos.

Ai daquele que “fura” o dedo ao manusear o tear e acaba adormecendo na leitura. Perderá toda possibilidade de boas leituras enquanto não tiver o “beijo” de algum mediador ou contador de histórias que o desperte para o ler. São muitos fios, muitas agulhas, muitos tecidos a serem desvendados. Um verdadeiro mistério. O sétimo mistério de Osman Lins. Sim, homens também “costuram”. Veja Dalton Trevisan, Julio Cortázar, Machado de Assis e Osman Lins, entre vários outros.

A costura sempre esteve afinada com a literatura. Pegar a linha do enredo, perceber a trama do discurso, perceber os fios correndo na folha, entrecruzando-se, produzindo um outro discurso que se emaranha em outros fios, costurando os pensamentos e sentimentos. De ponto em ponto vai-se aumentando o conto. Um verdadeiro mundo/patchwork de informações.

O escritor não quer vender um texto/tecido, mas sim mostrar que também o leitor tece.

Mas… onde eu estava mesmo? Perdi o fio da meada…

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Susan Sontag

Por Toda Letra em 7 de janeiro de 2013

Hoje, 7 de janeiro, comemora-se o Dia do Leitor. Por isso, pedimos para a autora curitibana Susan Blum, um texto especial para a data. E ela fez questão de colaborar nos mandando este conto sem cobrar nada por isso. Obrigado, Susan!

Chuva forte lá fora, os raios e os trovões acendem ecos do passado. Aproveito para ficar enrodilhada no sono leve, tão leve que não resiste às palavras de meu amigo que mora comigo. Ele tem o hábito de ler em voz alta. Frase por frase são lidas, depois relidas apenas mexendo os lábios e, por fim, ele fica repetindo a frase em sua cabeça, com o livro entreaberto no colo, os olhos mirando o teto. Depois vem outra frase, e assim por diante.

Acompanho sua leitura, algumas vezes também olho para o teto, em outras me encosto em seu corpo morno e ele, tão concentrado, apenas passa a mão em minha cabeça. Hoje está um dia para meditar: a chuva é fértil para os que sabem aproveitá-la. Já que não dá para sair, o jeito é pensar!

Mas pensar me dá sono e logo volto a me enrodilhar e dormir. quando acordo me vem uma das frases, lidas ontem, na cabeça: “penso, logo, existo”. Eu penso, logo existo? Será? Será que meu amigo realmente pensa? Será que ele existe? Mas…se a cadeira e o sofá não pensam… não existem? Ou será que os criei porque penso? será que eu realmente penso ou será que eu imagino o tempo todo?E qual é a diferença entre eles? pensar não é imaginar? O que é real? O que é ilusão?

O que é um simulacro? Sou um simulacro? Um lacre simulado fechando uma torrente de coisas que eu sou? tantas máscaras impostas desde a infância que fica difícil saber quem realmente sou. Procuro os rótulos dados pelos outros e insisto em me encaixar em um ou outro (geralmente os mais aceitos pelas pessoas).

Todos esses pensamentos me foram esmagados pela realidade, pois meu amigo deixou o livro de Baudrillard de lado, me chamou “venha Susi Sontag”, seguido de um pst, pst e colocou leite em minha tigela.

Susan Blum (ou Susan Blum Pessôa de Moura – 1963) é professora universitária na Universidade Positivo (Curitiba), oficineira de criação literária no CELIN (UFPR). Autora do livro “Novelos nada exemplares” (contos – 2010) e também participante da coletânea de contos “Então, é isso?” (escritores paranaenses – 2012). Formada em Psicologia (PUC PR) e Letras (UFPR), mestre em literatura (UFPR). Está procurando uma editora para publicar a biografia de Julio Cortázar que escreveu junto com o jornalista Cassiano Viana.  Acesse o blog dela aqui.