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Bandido bom é bandido morto

Por Toda Letra em 16 de março de 2014

por Susan Blum*

Desde pequena sempre escutei um “ditado”, seja pelos meus pais, seja na escola: “Não faça aos outros, o que não querem que te façam!”

Não quero ser traída, logo, não traio. Não quero que me batam, logo, não bato. Não quero que queimem minha casa, logo, não queimo a casa de ninguém.

Já falei sobre os atos de violência em uma postagem no meu blog, verás que um filho teu não foge à luta.  NÃO sou a favor da violência. NUNCA!

Já comentei também sobre Gentileza. Basta ler sobre MITO DE PROCUSTO

Mas parece que o ser humano está se transformando em animal, querendo matar, bater, “fazer justiça” com as próprias mãos. Não sou religiosa (tenho as MINHAS convicções), mas percebo que muitos “cristãos” são a favor desta “justiça”.

O meu receio é que cheguemos a tal ponto que: se antes tínhamos medo de ladrões e assassinos, se antes tínhamos medo da polícia (muitas vezes violenta), hoje devemos ter medo de TODA e qualquer pessoa. Pois podem me acusar de algum delito amanhã “É ela! Foi ela quem roubou meu carro!” e o povo me lincha em plena rua.

É esta barbárie que queremos para a humanidade?

Tenho que me corrigir. Sou humana, logo falho. Eu escrevi lá em cima que o ser humano está se transformando em animal. Perdoem-me, animais! Vocês estão dando belos exemplos que deveríamos seguir. Volta e meia vemos notícias de animais que adotam filhotes de outros, ou que ajudam outros animais. Um pequeno exemplo que vi hoje: Hipopótamos salvam gnu de jacaré.

Mas a questão é: “Bandido bom é bandido morto?” Você realmente acredita nisso?

Então temos que matar você. Cuidado! Pois quem aqui (e me incluo) NUNCA ficou com algo que não lhe pertencia? Com certeza algum dia, em algum momento, você já roubou algo! Desde pequenos objetos, até o tempo ou paciência de alguém.

Repense seus preconceitos!

Ah! Antes que venha alguém dizer: “se você gosta de bandido, leve para casa” (uma frase batida ridícula de quem não pensa sobre o está falando!). Sou a favor das baleias, dos animais abandonados, de salvar as florestas, enfim… de muitas causas. Mas óbvio, que não levo para casa baleias, cachorros e gatos abandonados, florestas. Por favor, saibam argumentar! Se você é a favor do título da postagem, me dê ARGUMENTOS para isso. Podemos então conversar neste espaço virtual.

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*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Educação ou ensino?

Por Toda Letra em 29 de abril de 2013

por Susan Blum*

Ontem, dia 28 de abril, foi o dia mundial da Educação.

Gostaria de aproveitar este dia para fazer algumas reflexões. Primeira questão: há diferença entre os conceitos das duas palavras do título?

Segundo alguns estudiosos do assunto (não tenho estudo específico sobre educação e por isso busquei na internet) “Educação é o processo de transferência e aquisição de valores enquanto Ensino é o processo de transferência e aquisição de conhecimentos.  Conhecimentos é o conjunto de saberes cientificamente comprovados.” (sic)

Gostaria de pensar um pouco sobre estas colocações.

Sou professora há pouco mais de 30 anos (comecei com 17 anos, dando aula em Jardim de Infância), eu ensino – principalmente – as pessoas a escreverem. Mas não só isso. Sempre inseri nestes ensinamentos (desde o Jardim, até hoje) a educação. Ou seja, através de leituras e escritos, sempre busquei que os alunos PENSASSEM sobre as coisas. Que QUESTIONASSEM tudo que lhes é passado. Uso muito o poema VERDADE, de Drummond, para iniciar os alunos nestes pensamentos, reflexões e argumentações. PRECISO que o aluno PENSE sobre o que falo. Que faça, por conta, as devidas conexões de todo o material que vou repassando, conseguindo promover diálogos entre paráfrase, paródia, ideologias, charges, pontos de vista, questionamentos, metáforas, metonímias, argumentações, paradigmas, empatia, etc. Que o aluno busque mais conhecimentos na internet, nos livros, em artigos acadêmicos.

Ou seja, dissociar ensino de educação me parece um pouco frágil. Claro que a família repassa a maior parte dos valores; mas não será função de um Mestre abrir os olhos dos discípulos para que percebam outras possibilidades e façam suas escolhas por si mesmos?

Sabemos, por experiência, que reprimir os jovens só traz problemas futuros. Que temos que prepará-los para as dificuldades e tentar mostrar que todos eles têm potencial. Mas também mostrar que o uso e desenvolvimento deste potencial só cabe a eles. Não interessa se o aluno está em uma Universidade Federal ou na X ou Y. Não interessa se tem os melhores professores. É O aluno que faz a sua formação! Mas sim, ajuda ter professores que dialoguem, argumentem, contestem, escutem. Isto fará com que o aluno tenha mais vontade de aprender e crescer. E tudo isso com respeito.

Aliás, coisa que falta muito hoje em dia. Vemos alunos desrespeitando professores, filhos desrespeitando pais, pessoas violentas nas ruas, discutindo e brigando por qualquer coisa. Relacionamentos baseados em discórdias. Pessoas que não conseguem ter bom convívio, que se tornam sociopatas, fugindo da sociedade (com poucos ou nenhum amigo).

A sanidade mental, intelectual, sentimental corre – hoje em dia – um grande risco. O que falta? Educação? Ensino? Ou amor?

Dias atrás recebi diversas mensagens pelo facebook. Muitas delas considero relevantes e por isso associo a esta “crônica”. Afinal, é com a rede de conhecimentos, diálogos e possibilidades de reflexão que podemos nos tornar pessoas melhores. Considero importante a troca de ideias e de pensamentos.

Vou linkar por partes:

1. Caso Yoani. Sou filhote da ditadura. Não vivi os anos 60 com consciência, pois era uma criança (que só queria fugir da realidade dura da casa, subindo em árvores com um livro e seu gato, para não ter que ver ou pensar sobre a violência). Então,  independente de não viver a realidade da ditadura, vivi a realidade doméstica. Assim, não compreendo pessoas não permitirem a liberdade de expressão de outros (não deixar o outro falar é algo que me abala profundamente). Sempre recordo de uma fala de uma professora, que tive na 4ª série: “Minha liberdade termina onde começa a do outro”. Respeito acima de tudo. O que faltou para estas “pessoas” que tentaram calar a voz de Yoani à força? Educação? Ensino?

2. Nativos digitais. A notícia é antiga: novembro de 2012. Mas fiquei fascinada em ver como a curiosidade levou, sem orientação, crianças de comunidades isoladas na Etiópia a aprenderem a manejar tablets e a se alfabetizarem sozinhas. O que sobra nestas crianças? Educação? Ensino?  Sei o que faltava: oportunidade.

3. Educação e Pirataria. Este assunto já é mais complexo porque gera mais discussão acalorada, então me limito a linkar 3 possibilidades de reflexão: Blog de Adonai.

(espero, sinceramente, que o José Padilha faça os filmes sobre pirataria e sobre a educação)

Meu blog, postagem sobre plágio.

Notícia recente: “Quanto menor a renda e a escolaridade, maior o respeito à lei, diz estudo da FGV” 

Quanto menor a renda e a escolaridade maior o respeito… qual será o real motivo? Medo? Recorrente impunidade aos ricos? Pessoas com maior renda e escolaridade se acham mais “espertos”? Ou a ética (valores) ainda prevalece nos mais pobres? Se for este o caso – de novo as perguntas. Por quê? Religião? Educação dada pela família (tipo: sou pobre, mas honesto?)

4. Mr. Hollywood e as crianças do lixão. Outra notícia que adorei. Novamente mostrando que basta dar oportunidade, que as crianças logo aproveitam bem. Esta história me fascinou principalmente pela “coragem” do Mr. Hollywood largar tudo que tinha para ajudar desconhecidos. Coisa que não vejo em muita gente. Principalmente em pessoas que vivem arrotando sobre as mazelas da educação, mas que nada fazem de concreto para mudar a situação (ou que se dizem cansadas do mundo e que pretendem fugir para o meio do mato, sozinhas).

Enfim. Novamente deixo aqui fios soltos. Cabe a cada um pegar o fio da meada e costurar novas realidades. Ou ao menos deixar, nos comentários, alguns quadrados de sua vida (como eu fiz aqui), para compor o PACHTWORK da educação e do ensino (por falar nisso, recomendo o filme Colcha de Retalhos).

E, assim, finalizo com um último link:

John Dewey – um exemplo que deveria ser seguido. Reparem QUANDO ele falou sobre educação e ensino. Até a próxima coluna!

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

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Curitiba surrealista

Por Toda Letra em 2 de abril de 2013

Susan Blum*

Dois anjinhos sorridentes passam por mim na altura da janela do Expresso.

Este fato me desperta o olhar. A curiosidade daquela menininha que perguntou ao pai o que o gato queria saber. Aquele. Cuja curiosidade o matou.

Percebo então que uma oncinha cruza com ursos polares, em um jardim multicolorido de rosas brancas, girassóis mais que amarelos, lilases, orquídeas, flores miúdas azuis. Este cruzar lento entre os animais, bem pacífico, intrigaria Darwin.

Variadas pizzas verdes, marrons, roxas – com ou sem a borda da catupiry – também rodopiam pelas ruas, fazendo inveja a qualquer político corrupto.

Já Kandinsky ficaria encantado com as bolinhas vermelhas, as listras azuis, os xadrezes verdes, os amarelos explosivos em tufos. Tudo em uma mistura geométrica desordenada.

Um ou outro preto ainda teima em aparecer. Funéreo, lúgubre, insalubre, fúnebre, para nos fazer lembrar da Curitiba provinciana.

Só não vi nenhum branco. Claro! Puro e virginal? Nos dias de hoje? Nem pensar!

Mas… espere! Quase isso. Olha lá! Sinto como se tivesse penetrado na tela de Meia-noite em Paris. Sim. Paris. Século XIX.

É. A chuva em Curitiba nunca mais será a mesma!

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

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Coluna da Susan 1: Tecendo as letras

Por Toda Letra em 4 de março de 2013

Susan Blum*

Convidada a escrever quinzenalmente para a Toda Letra, aceitei prontamente, pois um dos grandes prazeres que tenho na vida é escrever. Pensei em iniciar com um pouco de reflexão.

TECENDO as letras

Texto, segundo Barthes em seu O prazer do texto, “quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia” (Barthes, 2004, p. 74/75).  As minhas tecituras começaram cedo, com o Apólogo de Machado de Assis, passando pelos galos tecendo a manhã de João Cabral, costurando os botões em greve da Rita Apoena, alinhavando a moça tecelã de Marina ou Penélope de Dalton. Enfim, são tantos fios inspirados por Aracne, que fica difícil escolher algum para o meu texto. Gosto das histórias sobre as parcas que posso ver como metáfora da escrita: criação, desenvolvimento/destino e a “morte” do MEU texto para uma ressurreição no olhar do leitor que passa a ser novo dono do texto, tecendo com sua bagagem pessoal. Ou o fio de Ariadne que vai nos conduzindo no labirinto das diversas leituras/caminhos.

Ai daquele que “fura” o dedo ao manusear o tear e acaba adormecendo na leitura. Perderá toda possibilidade de boas leituras enquanto não tiver o “beijo” de algum mediador ou contador de histórias que o desperte para o ler. São muitos fios, muitas agulhas, muitos tecidos a serem desvendados. Um verdadeiro mistério. O sétimo mistério de Osman Lins. Sim, homens também “costuram”. Veja Dalton Trevisan, Julio Cortázar, Machado de Assis e Osman Lins, entre vários outros.

A costura sempre esteve afinada com a literatura. Pegar a linha do enredo, perceber a trama do discurso, perceber os fios correndo na folha, entrecruzando-se, produzindo um outro discurso que se emaranha em outros fios, costurando os pensamentos e sentimentos. De ponto em ponto vai-se aumentando o conto. Um verdadeiro mundo/patchwork de informações.

O escritor não quer vender um texto/tecido, mas sim mostrar que também o leitor tece.

Mas… onde eu estava mesmo? Perdi o fio da meada…

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.