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Arquivo da Categoria ‘Coluna da Susan’

Que chique!

Por Toda Letra em 19 de julho de 2014

Por Susan Blum

Que chique.  Lacinhos rosados em cada tufo de pelo branco balançam junto com o rebolado da cauda lulupomerânica. Chique. Seu dono também desce do carro chique, com seu terno vinho sommelier e seus preciosos minutos sendo registrados pelo chique Patek Philippe Henry Graves. Passeavam ambos pela praça pequena próxima de minha casa.

Eu observei a cachorrinha chique ficar na posição que qualquer cão guapeca fica quando precisa “purgar”. O objeto que de lá sai também é igual ao de qualquer vira-lata e o cheiro idem. Chique. Muito chique.

O homem chique pega uma sacolinha do bolso (não deu para ver de qual loja chique que era). De forma chique ele catou o “objeto” e deu um laço chique nela.

Foram andando de forma chique até o carrão que apitou sozinho e abriu suas portas para o pulo lépido da chique cachorrinha.

Pensei: “pelo menos ele dá o exemplo e leva o cocô da sua cadela”.

Ele também entra no carro, põe a mão esquerda para fora com a sacolinha pendurada e liga o carro. Seu braço chique, abraçado pelo relógio chique, segurando o cocô de forma chique: com seu minguinho e anelar levantados e os 3 dedos segurando a embalagem na pontinha deles.

Penso: “Nossa! Ele é tão chique que sequer leva a sacola de cocô chique dentro do carro chique.”

Mal ele vira a esquina, vejo-o – de forma chique – deixar a sacola cair na rua, ainda com o dedinho levantado.

É. Ele era chique demais para o meu gosto.

Ele é um chique………..eiro.

Primeiros Passos

Por Toda Letra em 9 de maio de 2014

Por Susan Blum*

Foto: Chara Rial Blog

erste Schritte

Abro a porta e a vejo. Sentada no sofá. Ela me vê e ri.

Vejo que ela se levanta sozinha e vem andando até mim. Andando! Sozinha!

Os primeiros passos!

Os primeiros passos sem nenhum apoio!

Sem nenhuma ajuda.

Fico apreensiva, mas ao mesmo tempo MUITO surpresa e alegre!

Que delícia!

O sorriso dela corre até mim. Que felicidade.

Sinto um amor enorme por este serzinho frágil que tem uma relação de vidas comigo. Sinto muita ternura e muita felicidade. Vou até ela e a abraço forte.

O amor explode precipitando-se pelo ambiente.

Sinto o aligeirar de lembranças e recordações.

Depois de um mês difícil com altos e baixos. Após a cirurgia, as complicações, as visitas ao hospital, os cuidados extremos de todos da família.

Ah… os primeiros passos. Um símbolo da busca da independência.

Independência que é conquistada com tanta luta, esforço e sacrifício.

Assim, compreendo quando ela fica chateada quando queremos ajudá-la em tudo. Mas ela tem que entender que é uma espécie de retorno de amor.

Quero dar a ela – de forma mínima – um pouco de tudo que ela fez por mim.

As intermináveis noites e madrugadas, com a filha no colo, sem conseguir respirar por causa da maldita bronquite asmática. A mãe carregando a filha e andando pela casa, para ajudar a entrar o ar.

Como eu queria pegar ela no colo e sair por aí com ela, para lhe dar um pouco de novos ares.

Minha mãezinha querida está andando sem o andador!

Compreendo então porque quero tanto ajudá-la. Fico imaginando a alegria dela com os meus primeiros passos. E hoje, o pequeno grande milagre: os primeiros passos.

E o primeiro “passeio” que não foi para ir ao hospital ou a exames médicos. Ela me levou para a faculdade. E me senti como a Susi pequena que era levada pela mãe até o Grupo Escolar Tiradentes.

Quem é mãe? Quem é filha? Apenas conceitos. Somos eu, ela e minha irmã.

O clã feminino da família. O coração pulsante da base familiar! Meus amores.

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Esqueleto de alma

Por Toda Letra em 28 de abril de 2014

por Susan Blum*

Um pedacinho incrustado entre os dentes: um resmungo que queria sair aos 15 anos.

Uma unha encravada no pé direito, uma vontade de viajar que ficou presa.

No esqueleto da coluna, uma envergadura que não quebra: o pai paralítico.

No olho esquerdo um cisco teimoso, um choro engolido aos cinco anos.

O mijo que não existe mais foi o medo do olhar do pai.

Uma saudade escondida no canto esquerdo inferior do coração, o homem que ainda amo.

Um nozinho na garganta por não ter feito algumas coisas que desejava.

Uma cosquinha na ponta dos dedos, aquela história só pensada e esquecida.

Uma caspinha de ressentimento, o grande amigo da faculdade.

Um cheiro de infância que está solta no balão do pulmão.

A lágrima de alegria que se infiltrou naquela ruga mais seca.

Aquele filme e aquele livro que não li ou assisti, que abriram os espaços entre os neurônios.

Os pensamentos esquisitos e os outros (“antenados”) que se perderam atrás das caixas de memórias.

Os objetos dentro das caixas de lembranças, que foram se amontoando, esperando uma limpeza nunca feita.

Os sons de todas as músicas ouvidas, cantadas, dançadas e embaladas em outros corpos e que ficaram pirogravadas na bigorna dos ouvidos.

As poeiras dos desejos não satisfeitos ( e dos satisfeitos) que tecem cortinas nas meninas dos olhos.

Os amores e desamores que fluem nos refluxos do estômago junto com as borboletas.

Os passos dos medos e anseios que ecoam por dentro dos ossos.

Esta é a alma do meu esqueleto. Sou eu.

E você? Do que é feito?

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*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Bandido bom é bandido morto

Por Toda Letra em 16 de março de 2014

por Susan Blum*

Desde pequena sempre escutei um “ditado”, seja pelos meus pais, seja na escola: “Não faça aos outros, o que não querem que te façam!”

Não quero ser traída, logo, não traio. Não quero que me batam, logo, não bato. Não quero que queimem minha casa, logo, não queimo a casa de ninguém.

Já falei sobre os atos de violência em uma postagem no meu blog, verás que um filho teu não foge à luta.  NÃO sou a favor da violência. NUNCA!

Já comentei também sobre Gentileza. Basta ler sobre MITO DE PROCUSTO

Mas parece que o ser humano está se transformando em animal, querendo matar, bater, “fazer justiça” com as próprias mãos. Não sou religiosa (tenho as MINHAS convicções), mas percebo que muitos “cristãos” são a favor desta “justiça”.

O meu receio é que cheguemos a tal ponto que: se antes tínhamos medo de ladrões e assassinos, se antes tínhamos medo da polícia (muitas vezes violenta), hoje devemos ter medo de TODA e qualquer pessoa. Pois podem me acusar de algum delito amanhã “É ela! Foi ela quem roubou meu carro!” e o povo me lincha em plena rua.

É esta barbárie que queremos para a humanidade?

Tenho que me corrigir. Sou humana, logo falho. Eu escrevi lá em cima que o ser humano está se transformando em animal. Perdoem-me, animais! Vocês estão dando belos exemplos que deveríamos seguir. Volta e meia vemos notícias de animais que adotam filhotes de outros, ou que ajudam outros animais. Um pequeno exemplo que vi hoje: Hipopótamos salvam gnu de jacaré.

Mas a questão é: “Bandido bom é bandido morto?” Você realmente acredita nisso?

Então temos que matar você. Cuidado! Pois quem aqui (e me incluo) NUNCA ficou com algo que não lhe pertencia? Com certeza algum dia, em algum momento, você já roubou algo! Desde pequenos objetos, até o tempo ou paciência de alguém.

Repense seus preconceitos!

Ah! Antes que venha alguém dizer: “se você gosta de bandido, leve para casa” (uma frase batida ridícula de quem não pensa sobre o está falando!). Sou a favor das baleias, dos animais abandonados, de salvar as florestas, enfim… de muitas causas. Mas óbvio, que não levo para casa baleias, cachorros e gatos abandonados, florestas. Por favor, saibam argumentar! Se você é a favor do título da postagem, me dê ARGUMENTOS para isso. Podemos então conversar neste espaço virtual.

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*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Saudade do Futuro

Por Toda Letra em 6 de janeiro de 2014

Saudade do Futuro

No primeiro dia de 2014, e bateu uma saudade do futuro.

Talvez vocês, leitores, não entendam bem isso. Talvez nunca tenham sentido saudade do futuro.

E justo no dia primeiro também vi a foto de uma nova colega, no facebook, que me deu mais saudade ainda.

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Fiquei mirando e admirando a foto e acabou me surgindo uma pequena reflexão (ainda com espírito de final de ano 2013 – início de ano 2014).

Eu já fiz a retrospectiva 2013 (vide meu blog), e tenho que repetir que este foi um ano MUITO especial para mim, em vários sentidos. Mas principalmente porque aprendi e me transformei nestes últimos sete meses o que não aprendi e me mutacionei em toda uma vida.

Sei que esta passagem (Reveillon) é apenas como um ritual. Um símbolo. Nós não “jogamos” fora o que se passou, mas sim usamos como espelho (reflexo) para o caminho futuro.

foto 2

Garanto que renasci no dia 27 de agosto. Desde então estou morrendo um pouco. E isto é ótimo!

Percebi que plantei algumas flores ao longo de minha jornada de meio século. Mas que não se comparam às flores que pretendo plantar daqui por diante.

Percebi que é sempre bom relembrar do passado (sejam as coisas boas, sejam as ruins). Para continuar tendo forças (com as boas) e para não repetir os erros (com as ruins). Por isso o espelho retrovisor (dar uma espiada no que se passou, é necessário).

Pela primeira vez senti o que é o amor verdadeiro. E pretendo carregá-lo comigo para o resto de minha vida, dividindo-o sempre com os outros. Usei a palavra dividindo mas é um equívoco, pois pretendo doar tal qual chama que acende outras fogueirinhas e que nunca se apequena.

Prevejo um caminho LONGO e maravilhoso à minha frente e pretendo segui-lo com meu instinto mais afiado.

Meus pés estão prontos para percorrê-lo. Meu coração está pulsante em senti-lo.

Espero poder logo me abrir sobre ele, para todos.

Ele é florido. Florido de arco-íris, de olhares quentes, de sonhos leves, de pinceladas negras profundas.

Que em 2014 eu possa plantar as primeiras sementes desse sentimento. E que me sejam dadas asas para completar esta peregrinação!

Assim seja!  FENOMENAL 2014

(Agradeço as fotos, Marlyn Voigt e Magro Costa)

 

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Pouso Leve

Por Toda Letra em 16 de dezembro de 2013

Para D.

 

Dia 11 deste mês, eu estava (um pouco após 07h30) no Terminal do Capão da Imbuia, na fila do Inter II. De repente, uma borboleta veio de mansinho e pousou em meu casaco azul cobalto, quase na altura do meu peito. Percebi que algumas pessoas nas filas ao lado repararam. Mas só vi isso pelo canto dos olhos, porque na verdade fiquei mirando, absorvida, aquele ser incrível que havia pousado em mim.

Era a primeira vez que uma borboleta pousava em mim e permanecia tanto tempo. Ela abria e fechava suas asas e ali ficou até que finalmente chegou o ônibus. Eu não queria que ela fosse esmagada pelos inúmeros passageiros, então, para não assustá-la, coloquei de leve meu dedo indicador em suas patinhas, para que ela voasse.

Para minha surpresa, ela subiu em meu dedo. Todas as patinhas grudadas por todo meu dedo.

E foi então que senti…

… ela vibrava. Uma vibração forte como se fosse de um coração.

Era como se eu tivesse um coração alado pulsando em meu dedo. E ali ficou.

Eu andando até a porta do ônibus, mexendo o dedo para cima e para baixo, de leve.

E ela pulsando.

Quando estava para entrar, levantei mais ainda o dedo e levemente assoprei.

Só então ela levantou voo e se foi. Mas confesso que o leve pouso e a forte pulsação permaneceram comigo pelo resto do dia.

 borboleta

Foto: Susan Blum

Foi um dia leve, com um sorriso flanando em minha boca.

E assim eu queria a minha última crônica. A última crônica do ano: que fosse leve, pulsante, esperançosa, alegre, e que permanecesse com vocês, que me acompanharam durante este primeiro ano no blog da Toda Letra.

Que 2014 possa nos trazer mais borboletas, mais levezas e mais surpresas boas como a que tive.

* Para completar o dia 11, ganhei da amiga Karmel um cristal lindíssimo. Mais leveza para o dia.

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Caridade

Por Toda Letra em 3 de dezembro de 2013

É estranho como as pessoas reagem de formas diferentes à caridade.

Aliás, que sei eu de caridade?

Na verdade nada. Percebi que o que vejo como “o mínimo a se fazer” é, para algumas pessoas, caridade. Percebi que certas coisas que faço por me sentir bem fazendo, outras pessoas veem como forma de se autopromover.

Para ser sincera, prefiro fazer as coisas porque acredito nelas e não para ouvir o que os outros têm a dizer sobre isso. Já aprendi que cada um pensa de acordo com o que tem no coração. Tive um namorado que dizia que eu era muito ingênua, que não percebia o quanto as pessoas me usavam. Sinceramente? Não percebia mesmo. E se me usaram, azar (ou sorte) delas.

Quem me acompanha no facebook vê que volta e meia divulgo as aulas para os haitianos (trabalho voluntário que faço), ou sobre o projeto FESTA (visita a orfanatos, asilos, lares, etc), ou sobre meus cursos gratuitos de contação de histórias (ou formadores de mediadores).  Nunca falaram diretamente para mim, mas um aluno me disse que ouviu alguém comentando que era autopromoção minha.

Meu pai sempre me ensinou a fazer o bem, e a fazer de forma quieta (que a mão direita faça sem a esquerda saber – era o que ele dizia – hoje penso nesta frase com outros sentidos esotéricos). E, sinceramente, o que faço na vida particular é coisa minha. Mas projetos ou cursos como estes eu divulgo sim. Primeiro porque quero que mais pessoas conheçam e possam participar. Segundo porque hoje vejo isso como divulgação necessária (as pessoas não sabem quanta coisa boa acontece no mundo, como tem gente bacana que faz algo pelo próximo sem pensar em recompensas financeiras ou outras). Precisam ver que o mundo não é só desgraça.

O estranho é que a maioria das pessoas que critica são justamente os que nada fazem para melhorar o mundo. Não dão sorrisos, só reclamam, só acham ruim das coisas que os outros fazem. Em nada contribuem de forma direta e concreta.

Outra coisa que aprendi dias atrás, em uma formatura de ex-alunos que me homenagearam: lá eu sentei na mesa de um dos alunos com sua família. E minha mãe disse que muitos familiares dele eram apresentados à ela como: “esta é a mãe da Susan. Ela fez uma sopa que a Susan levou quando minha esposa teve um acidente na boca e não podia fazer esforço e nem se alimentar de sólidos”. Uma simples sopa que minha mãe fez e que eu levei até a casa de meu ex-aluno ficou marcado na vida deles. Um gesto tão simples, tão inocente (algo que vi, na época, como uma necessidade de ajudar. Apenas isso.).

Ou seja, certas atitudes que temos ou tomamos muitas vezes ficam marcadas nas vidas das pessoas. E isso é real. Tenho em meu coração muitas atitudes bonitas que tiveram comigo. Um amigo que na época que eu tinha uma relação MUITO conturbada com meu pai, me pegava de carro em casa e ficava passeando de carro e conversando comigo. Meu irmão que ao saber que eu estava me separando, foi de carro até Joinville me buscar, sem eu saber – apareceu de surpresa e me “resgatou”. Um ex-namorado que era atencioso em demasia comigo, me dando muito carinho e sorrisos. Minha irmã que sempre está do meu lado quando preciso. Meu cunhado que já me escutou um monte, enquanto me dava carona para ir até a praia nos fins de semana. Enfim… tenho dezenas ou centenas de pequenos gestos e atitudes de pessoas para comigo. Guardo-os todos em meu coração e sei que o que vou levar da vida é justamente isso. Os pequenos gestos. Os detalhes.

Outro exemplo que de certa forma me “chocou” dias atrás. Achei um livro em minha biblioteca que percebi que seria interessante uma amiga ter. Procurei para comprar, mas o livro está esgotado. Procurei em sebos, mas não achei. Então comentei com ela que iria xerocar e dar o livro para ela. Ao que ela me respondeu: “as pessoas dizem que sou generosa, mas você é mais. Apenas me dê o xerox e já fico satisfeita”. Generosa? Eu? Só porque ia dar o livro para ela? Como eu disse: apenas percebi que ela faria um uso bem melhor que eu. Mas vou dar o xerox para ela hehe viu só como não sou tão generosa assim?

Por que tudo isso? Para que este texto? Simples. Cada dia é uma preciosidade na vida da gente. Saia. Sorria, Dê bom dia! Deixe seu mau-humor em casa, embaixo da cama ou, melhor ainda, jogue-o na privada e dê descarga. Porque ele só faz mal para você, para seus parentes, seus amigos, para a sociedade. Olhe nos olhos das pessoas. ESCUTE as pessoas. Observe a natureza ao seu redor. Ame. Independente de retorno do amor. Apenas ame. Mesmo que de longe (muito distante) continue a dar bom dia mentalmente para aquelas pessoas que você ama. Mesmo que não tenha retorno direto, tenha certeza de que este amor vai atingi-las de alguma forma.

Dias atrás fui à minha dentista e disse que estava naqueles dias em que a felicidade pulsava dentro de mim. Que eu via o dia como belo e tudo maravilhoso. E ela me disse: “ah. Você está no momento Poliana”.  Não. É diferente. Poliana é ser otimista, é ver o lado positivo das coisas. O que eu estava sentindo (e tenho sentido cada vez mais – ainda bem) é apenas amor. Um carinho grande pelas coisas, pelas pessoas, pelo sol, pássaros, pelo dia. Não sei dizer como é isso. Mas é uma sensação MUITO boa que espero que se repita muitas vezes. Não deixo de ver as coisas ruins que existem, como o taxista que atropelou a senhora e ainda postou nas redes sociais fazendo piada do fato. Apenas dou mais importância ao que sinto pelas pessoas e natureza… este sentimento de desejo de que todos fiquem bem, de carinho por todos.

Se isso é caridade? Não. Acho que não. Aliás, sou uma das pessoas mais egoístas que conheço, pois ao fazer algo pelo outro me sinto muito bem. Não escute o que os outros falam. Apenas faça o que sabe ser certo. Não por você, mas pelos outros. Viva e deixe viver. Gosto muito desse ditado. Tão verdadeiro!

Para concluir sobre a CARIDADE: nada do que eu disse que faço ou fiz, considero caridade. Quer saber o que acho que é caridade? Então leia o romance “Neve sobre os cedros”, de David Guterson. O que o rapaz faz é que é caridade, na minha opinião. Um amor totalmente desinteressado. Espero chegar lá algum dia.

Para finalizar a crônica do mês: Lembram que eu falei de detalhes? Então, geralmente passam despercebidos, pois estamos na correria do dia-a-dia, sempre com tempo atrasado e com tarefas cada vez maiores para realizar. Pare um pouco. Estique as pernas e os braços. Respire fundo. E coloque este som para ouvir com tranquilidade. Foi na correria do dia-a-dia que ele me chegou dias atrás (através de uma postagem de uma pessoa incrível: Larissa, da practice). E o encanto que senti perdura até hoje, e se fortalece toda vez que escuto de novo. Pois parece um coral de fadas que foi condensado em um simples inseto. Um inseto que sempre me fascinou (principalmente pelas histórias que eu ouvia de que ele era engaiolado e usado como de estimação no Oriente). Hoje me pergunto se eles sabiam da generosidade dele ao cantar para nós. Um grilo. Um detalhe quase insignificante diante da Natureza imensa ao nosso redor. E ele é capaz disso. Do que seremos capazes então?

grilo

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Tenho, logo existo!

Por Toda Letra em 16 de outubro de 2013

Existir. Palavrinha estranha que permite que reconheçamos (ou não) os outros ou as coisas. De que forma existimos? De vários jeitos. Alguns deles, mais comuns hoje em dia, sem contar o nome e o sobrenome.

Dígitos. Quanto mais dígitos a pessoa tiver, mais ela existirá – e não estou aqui falando de idade. Já se foi a época em que as pessoas com mais idade eram mais respeitadas. Hoje em dia, os idosos não são centro das atenções e suas histórias repetitivas como discos arranhados apenas prolongam uma dor arrependida de termos dado atenção, de termos colocado a agulha nas primeiras ranhuras com um simples “Olá, como vai?” provocando com isso o início do derramamento da areia na ampulheta de anos empoeirados. Cada pedrinha da areia uma doença, uma dor, um arrependimento, uma reclamação…

Não. Estou falando aqui de outros dígitos. Os dígitos monetários. Como no verso de Trilussa, estou falando daquele indivíduo, aquele “um”. Que se transforma após ter vários zeros seguindo-o. Quanto mais zeros seguindo o “um”, mais ele terá outros zeros que o admiram, que puxam seu saco, que o elogiam falsamente.

Digital. Mas você também pode existir se estiver ligado a outro digital: o mundo virtual. Uma vez me disseram que se eu não achasse o meu nome no Google, eu não existiria. Como sou curiosa desde pequena (vide Menina Curiosa) fui colocar meu nome no Google. Após breve expectativa, descobri que eu existia para o mundo. Posso não existir para aquele homem que considero fantástico, mas existo para o Google.

Digital. Também existo se tenho outra digital: uma digital que abre portas para mim (literalmente, pois a porta do CELIN só abre após eu inserir meu dedo nela), apesar de por vezes demorar para me reconhecer (então não sou só eu que demoro). Bastam algumas tentativas e logo escuto o som da porta liberando minha entrada. Esta é a mesma digital que está ao lado de meu nome, na minha carteira de identidade. Um labirintozinho de sulcos em um redemoinho.

Então, parece que até que não é difícil existir. Caso você tenha um, ou dois, ou três dos acima citados, você, sem sombra de dúvida… existe!

Mas conheço casos de crianças que não existem. Pequenos brasileirinhos que praticamente nascem trabalhando e – consequentemente – ajudando o país a existir no cenário mundial. Mas que não existem literalmente. E digo isso não somente pela invisibilidade social (a não ser quando estão muito perto do nosso olhar e que seu cheiro é sentido pelos frágeis olfatos acostumados a cheiros de carro novo ou amaciante nas roupas, além de perfumes franceses). Mas também por outros fatores.

Quem são estas crianças?

São brasileirinhos descartados que nos ajudam a saborear uma especiaria maravilhosa: castanhas de caju.

Devido ao processo de fabricação da castanha estes seres inocentes, sem infância, perdem toda e qualquer chance de existirem. São seus dedos que deram origem aos vários nomes citados anteriormente: dígitos, digital. São seus dedos que tiraram a possibilidade de existirem. Os dedos que deviam estar ocupados com pipas, bexigas, guidão de bicicleta, segurar bolas, jogar pedras no jogo da amarelinha.

Estes seres infantis não existem. Nunca existirão. Foram descartados pela sociedade que tanto valor dá ao pensar! E os culpados disso somos cada um de nós! Porque não pensamos sobre isso. Logo, também não existimos como seres humanos!

Se você quer pensar sobre o assunto e pretende fazer algo, leia aqui.

Curioso sobre os dedos trazerem os dígitos e digitais? Veja mais aqui.

Quer ler uma linda historinha sobre o caju? Procure o livro Tempo de caju, de Socorro Acioli, com ilustrações de Maurício Negro (editora Positivo – projeto Zepelim).

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Mutações!

Por Toda Letra em 23 de setembro de 2013

A mudança – que eu ainda não completei – está me trazendo muitas reflexões e oportunidades.

Sempre sonhei em ter meu canto, talvez pelo fato de ser a caçula de quatro, sempre ter morado com alguém (primeiro no mesmo quarto que minha irmã, depois sozinha no quarto que era dos meus irmãos, mas ainda com os pais, depois com marido e, quando separada, voltei a morar com a mãe).

E, como imaginava, estou adorando cada dia, cada minuto, cada segundo, sozinha.

Nos primeiros dias não fiquei sozinha (estava amando alguém que veio dormir comigo, jantar comigo, viver comigo – foi uma ótima iniciação no novo lar: amor), mas estraguei tudo e a pessoa evaporou. Guardo-a num cantinho de minha alma (uma sementinha para algum futuro?).

Agora, totalmente só, observo as sombras, o vento uivando nas janelas, o caminho do sol pelo apartamento, os pozinhos que se acumulam, os cheiros peculiares de cada instante do dia… são pequenas grandes descobertas de nós dois: ap e eu. Eu e ap.

Juntos admiramos o nascer do sol, o pôr-do-sol, preparamos o lanche e a pipoca, a sopa do final do dia, a rede na sacada (presente do primeiro amor do ap), o vinho na sala vazia, o licor no escritório cheio de livros, a água ao lado da cama de casal.

Sinto uma vibração diferente no corpo. Procuro olhar com vagar as transformações dentro de mim: mas quanto mais eu olho, mais eu vejo aquela menininha que ficava em cima do armário do quarto, para fugir de todos. Para poder ficar apenas olhando para a vida… pensando na vida.

Fiz 50 anos. E descubro uma Receita de Estranhamento:

“Fique olhando para suas mãos longamente. Observe a pele que não é mais esticada, as pequenas cicatrizes (antigas das unhas de gatos e recentes da mudança), veja as unhas quebradas de tanto carregar livros, a pele puxada ao lado da unha pelo hábito antigo (resquício de quando roía unhas na infância?), as veias mais saltadas, a cor de cada pedaço da mão. Quando sentir que está olhando para algo externo e diferente, abra mais os olhos e a consciência: sim! É você mesma! Essas mãos são suas. As mesmas mãos de menininha que pegavam os gatos, que subiam nas árvores, que andavam de bicicleta e que já tinham o hábito de escrever”.

Sim. É estranho. Estranho estar dentro deste corpo, como me era estranho estar dentro do mundo quando criança. Sempre me senti deslocada. Quando criança, queria ser adulta. Agora, adulta, me descubro uma criança. Já sou vista como velha. Mas não me sinto nem um pouco velha.

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Ainda tenho tanto a fazer, tanto a amar, tantas promessas a cumprir.

E, ainda agora, olho esta menininha aqui ao meu lado. A observo correndo pelo ap, dançando na sala vazia ao som de M.J., ouço suas risadas por ter realizado este sonho antigo: ter seu próprio canto.

E é admirando esta menininha que sinto que finalmente estou me encontrando!

P.S.: em1979, ganhei, em meu aniversário, um livro das amigas Ana Maria, Suely Keiko e Marli Koga: Mutações, de Liv Ullmann. Na mudança, acabei relendo o livro.

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Amar pode matar!

Por Toda Letra em 2 de setembro de 2013

Creio que todos já conheceram alguma mulher muito doce, gentil, meiga e amorosa. Cuidado! As aparências enganam. Não. Não estou dizendo que ela não é carinhosa e meiga. Ou que não ama. Sim. Ela ama. Mas este amor, esta meiguice, este carinho pode acabar matando, sufocando ou só afastando as pessoas.

Esta mulher geralmente é ótima para amizades. Mas não consegue ter um relacionamento e sempre coloca a culpa no outro. “Mas eu fiz tudo por ele!”, “Eu me dediquei. Doei-me totalmente”, “Eles são ingratos. Não sabem o que querem”. Estas são frases correntes desta mulher.

Não a culpem. Ela não tem consciência disso. Acredita de verdade que é “perfeita” e que os homens é que não sabem o que querem, afinal, eles finalmente encontraram uma pessoa incrível (inteligente, meiga, dócil, maravilhosa). Como podem não perceber isso?

Na vida, amadurecemos nos momentos certos. Conheço pessoas que são maduras com dez anos de idade. Outras com vinte. Mas a maioria amadurece quando tem trinta ou quarenta anos. Pois bem! Esta semana farei cinquenta anos. E o meu maior presente foi descobrir que sou imatura! Que ainda tenho MUITO a crescer, aprender, destruir e conhecer (de mim mesma).

É doloroso saber que tudo que acontece com você é culpa exclusivamente sua. Que de nada adianta tentar colocar a culpa nas circunstâncias, nas pessoas etc. Não devemos fazer isso nunca. Devemos perceber QUEM realmente somos.

Para estas mulheres que são Felícia (descobri um pouco dela em mim, com horror), que amam tanto que querem prender (fazendo surpresinhas, dando presentes, tentando sempre dar apoio e amor), peço que abram os olhos. Que percebam o quanto isso sufoca, o quanto acaba matando.

felícia

Deixem as pessoas e as coisas que vocês amam livres! Sei que falar é fácil. Que a mente aceita e acha bonito. Mas devemos praticar isso. Liberdade, PRATIQUEM!

Sugestão de uma mulher nada sábia? Canalizem este amor imenso com atos caridosos para quem precisa. Logo divulgarei um projeto muito bacana que espero que sirva como filete de água para diversos rios futuros.

Conhecem a velha frase de Quintana? “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”? Alguns dizem que na verdade é outra frase: “Não corra atrás das borboletas; plante uma flor em seu jardim e todas as borboletas virão até ela” – D. Elhers. Independente da autoria, estas frases são verdadeiras!

Que o mês de setembro, com a primavera, permita esta reflexão dentro de cada um de nós! Devemos plantar amor e permitir que as flores sejam livres (não as prendam em vasos). E que venham as borboletas!

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.