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Máquina do tempo

Por Toda Letra em 6 de fevereiro de 2014

Inventei a máquina do tempo!  E ela é movida a teias.

Teias de relações que me fizeram ir para a faculdade de Letras por causa de um ex-namorado que me fez ver a minha paixão por literatura. Faculdade que me fez conhecer, em uma disciplina, o Bruno, também apaixonado por fotografia-literatura. Que me apresentou o fotógrafo Dimas, no facebook. Que me levou ao grupo Espaço Fotógrafo, onde conheci a Goretti, que me levou ao Croquis Urbanos. Lá conheci o Mario Freitas, um dos coordenadores da Caminhada Observacional.

Mas o que isso tudo tem a ver com a máquina do tempo? Na verdade, tudo isso tem a ver com uma coisa que me levou a escrever a crônica: um TOMATE!

“Um tomate? – perguntará o inocente leitor – o que um tomate tem a ver com teias e como uma coisa como um tomate pode provocar um texto?” Eu poderia então falar sobre os textos poéticos de Francis Ponge (MARAVILHOSOS textos poéticos) em que ele se inspira em uma mimosa, ou uma caixa de engradado, ou um pedregulho. Objetos que permeiam o nosso cotidiano, mas que geralmente não são vistos com um olhar poético. CLARO que não estou me comparando a este grande poeta! Mas não vou falar sobre ele. Não é o objetivo aqui.

Para entender um pouco mais sobre o que pretendo trazer, preciso falar de hipertextos. Portanto, gostaria de citar Kristeva, que disse que todo hipertexto tem uma intertextualidade. Ela disse em 1969: “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é a absorção e transformação de outro texto”.

Tudo começou quando o meu mais recente amigo, Mario Freitas, colocou no facebook um desenho de um tomate que ele fez. Já o admiro por muitas coisas, afinal, ele provoca e instiga a gente o tempo todo, nos ensinando sobre física, fenômenos, arquitetura e artes. Mas o fato de ele ter iniciado um curso de desenho utilizando uma técnica totalmente desconhecida (desenho com esferográfica) e já postar no face o resultado me surpreendeu. Este é o desenho postado por ele:

maça

Ou seja, tudo isso por causa do “Tomate Rasteiro”.  Segundo Mario Freitas, sua descrição é a que segue: “policromia de esferográfica sobre papel canson, só a projeção da sombra foi deixada para terminar em casa, complementando com a junção entre a sombra e base do tomate. Na composição do vermelho escuro não foi usada a caneta preta, mas a verde, por ser a cor complementar e proporcionar um tom mais apropriado. Um pouco de caneta amarela próximo do cabo sugere que ainda não está totalmente maduro. O longo tempo de aula para a aprendizagem das técnicas envolvidas nesse trabalho acabou deixando pendente para os próximos dias a finalização do curso: vou apresentar ao professor uma nova natureza morta, feita do início ao fim sem a sua intervenção, para só então ter um parecer da sua parte. Trabalho que resultou da oficina oferecida pelo prof. Eliezer Bueno”.

Ele vai dizer que é um desenho de amador, cru. Mas vocês devem convir comigo que é belíssimo. Acontece que este desenho trouxe o gosto caído nos olhos de jabuticaba da menininha Susan que brilharam sabores quentes. E me levaram a escrever o que segue (texto que transcrevo do facebook):

“A água gorda dos astecas. A fruta que todos acham que não é fruta. Verde, amarelada, vermelha. Tantas cores reunidas. Água gorda, brilhosa, saborosa, chamativa. Se ela desse em árvores, eu diria que foi ela o fruto ofertado para Eva. Serpente esperta, um dos animais mais inteligentes que Deus criou.

Dizem que no início esta fruta era somente usada como enfeite em jardins. Tão linda aquela bolinha vermelha reluzente. Depois passou a frequentar pratos culinários. Seu nome é praticamente o mesmo em diversos países. Mas tem outro na Itália e na Rússia.

Mas o que me importa neste texto é falar sobre a fruta não de forma científica ou histórica. Nem romantizada como pomo d’amore – fruta do amor (dizem que tem efeitos afrodisíacos, mas o que é oficial é que ela faz bem como preventivo ao câncer de próstata, em até 50%).

O que quero falar é sobre o desenho dela. Um novo amigo a desenhou. Uma policromia de esferográfica em papel canson. Uma canção em vermelho, com leves notas verdes e amarelas. Não imaginei que a caneta esferográfica pudesse ter traços tão leves… pianíssimo!

O jogo de luz e sombra, tal qual teclas de piano, trazendo a melodia de um molho profundo e denso. Não maduro (o tomate, não o desenho). Apesar de saber que o desenhista dirá o contrário. Mas o que é um desenho maduro? Na minha humilde opinião, é aquele desenho que provoca arrepios, reflexão ou desejos. E o desejo de um tomate ainda quente do sol – antes de ser bicado pelo passarinho, que eu roubava do pé no quintal, sem meu pai ver…  voltou. Eu levava para o fundo do quintal um pouquinho de sal, e me escondia embaixo da parreira, para devorar o tomate.

Ou seja, este tomate não é rasteiro … é profundo… é alto. Alcança estrelas, alcança memórias antigas. Fico surpresa com um desenho tão bom em tão poucas aulas. Isso me anima a tentar também. Obrigada por isto, Mario!”

Enfim. Esta é a crônica. Espero que o leitor mais atento tenha percebido o que eu pretendia. Que nada está desconectado aqui. Que as ligações, teias, conexões, são fios, linhas, gavinhas, elos, que ligam, interligam, conectam, enrolam, mesmo que NÓS não tenhamos a mínima ideia do que está acontecendo.

Que cada leitor faça seu próprio link.

E que este ano que se inicia possibilite mais e mais relações, hiperlinks, teias e mosaicos, para cada um de nós. Mesmo que enxerguemos tudo apenas longe, seja no tempo, seja no espaço.

tomate

(Desenho: Mario Freitas. Foto: Susan Blum.)

4 comentários para “Máquina do tempo”

  1. Meus cumprimentos à autora do texto pela linda contribuição que qualifica em muito o ambiente da internet! Sinto-me extremamente lisonjeado por ver tudo o que pôde motivar, em termos de poesia, de história, de humanidade, o mero resultado de um exercício de arte resolvido por um professor de física…

    • Susan Blum disse:

      Caro Mario. Não se trata de um mero exercício de física. E a poesia existe em tudo. Basta lembrar de “Uma carniça”, de Baudelaire. Eu é que agradeço pela oportunidade que seu desenho criou, de eu viajar para o passado e me enlear nas teias da vida. Grata! Imensamente!

  2. Japiaçu disse:

    Esse teu texto e o desenho do Mario, me fizeram imediatamente lembrar de um fato ocorrido no litoral paranaense. Meu filho então com 5 anos me perguntou onde aquele mar imenso termina. Respondi que o ele não termina, mas que esse oceano banha a costa oeste da África. Na sua inocência de criança, meu filho falou. então se eu colocar minha mão aqui, posso tocar a costa da África? Minha resposta foi imediata: tudo está conectado. Pode sim. Não por acaso esse menino é hoje um homem feliz.

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