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Arquivo de dezembro de 2013

Pouso Leve

Por Toda Letra em 16 de dezembro de 2013

Para D.

 

Dia 11 deste mês, eu estava (um pouco após 07h30) no Terminal do Capão da Imbuia, na fila do Inter II. De repente, uma borboleta veio de mansinho e pousou em meu casaco azul cobalto, quase na altura do meu peito. Percebi que algumas pessoas nas filas ao lado repararam. Mas só vi isso pelo canto dos olhos, porque na verdade fiquei mirando, absorvida, aquele ser incrível que havia pousado em mim.

Era a primeira vez que uma borboleta pousava em mim e permanecia tanto tempo. Ela abria e fechava suas asas e ali ficou até que finalmente chegou o ônibus. Eu não queria que ela fosse esmagada pelos inúmeros passageiros, então, para não assustá-la, coloquei de leve meu dedo indicador em suas patinhas, para que ela voasse.

Para minha surpresa, ela subiu em meu dedo. Todas as patinhas grudadas por todo meu dedo.

E foi então que senti…

… ela vibrava. Uma vibração forte como se fosse de um coração.

Era como se eu tivesse um coração alado pulsando em meu dedo. E ali ficou.

Eu andando até a porta do ônibus, mexendo o dedo para cima e para baixo, de leve.

E ela pulsando.

Quando estava para entrar, levantei mais ainda o dedo e levemente assoprei.

Só então ela levantou voo e se foi. Mas confesso que o leve pouso e a forte pulsação permaneceram comigo pelo resto do dia.

 borboleta

Foto: Susan Blum

Foi um dia leve, com um sorriso flanando em minha boca.

E assim eu queria a minha última crônica. A última crônica do ano: que fosse leve, pulsante, esperançosa, alegre, e que permanecesse com vocês, que me acompanharam durante este primeiro ano no blog da Toda Letra.

Que 2014 possa nos trazer mais borboletas, mais levezas e mais surpresas boas como a que tive.

* Para completar o dia 11, ganhei da amiga Karmel um cristal lindíssimo. Mais leveza para o dia.

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.

Caridade

Por Toda Letra em 3 de dezembro de 2013

É estranho como as pessoas reagem de formas diferentes à caridade.

Aliás, que sei eu de caridade?

Na verdade nada. Percebi que o que vejo como “o mínimo a se fazer” é, para algumas pessoas, caridade. Percebi que certas coisas que faço por me sentir bem fazendo, outras pessoas veem como forma de se autopromover.

Para ser sincera, prefiro fazer as coisas porque acredito nelas e não para ouvir o que os outros têm a dizer sobre isso. Já aprendi que cada um pensa de acordo com o que tem no coração. Tive um namorado que dizia que eu era muito ingênua, que não percebia o quanto as pessoas me usavam. Sinceramente? Não percebia mesmo. E se me usaram, azar (ou sorte) delas.

Quem me acompanha no facebook vê que volta e meia divulgo as aulas para os haitianos (trabalho voluntário que faço), ou sobre o projeto FESTA (visita a orfanatos, asilos, lares, etc), ou sobre meus cursos gratuitos de contação de histórias (ou formadores de mediadores).  Nunca falaram diretamente para mim, mas um aluno me disse que ouviu alguém comentando que era autopromoção minha.

Meu pai sempre me ensinou a fazer o bem, e a fazer de forma quieta (que a mão direita faça sem a esquerda saber – era o que ele dizia – hoje penso nesta frase com outros sentidos esotéricos). E, sinceramente, o que faço na vida particular é coisa minha. Mas projetos ou cursos como estes eu divulgo sim. Primeiro porque quero que mais pessoas conheçam e possam participar. Segundo porque hoje vejo isso como divulgação necessária (as pessoas não sabem quanta coisa boa acontece no mundo, como tem gente bacana que faz algo pelo próximo sem pensar em recompensas financeiras ou outras). Precisam ver que o mundo não é só desgraça.

O estranho é que a maioria das pessoas que critica são justamente os que nada fazem para melhorar o mundo. Não dão sorrisos, só reclamam, só acham ruim das coisas que os outros fazem. Em nada contribuem de forma direta e concreta.

Outra coisa que aprendi dias atrás, em uma formatura de ex-alunos que me homenagearam: lá eu sentei na mesa de um dos alunos com sua família. E minha mãe disse que muitos familiares dele eram apresentados à ela como: “esta é a mãe da Susan. Ela fez uma sopa que a Susan levou quando minha esposa teve um acidente na boca e não podia fazer esforço e nem se alimentar de sólidos”. Uma simples sopa que minha mãe fez e que eu levei até a casa de meu ex-aluno ficou marcado na vida deles. Um gesto tão simples, tão inocente (algo que vi, na época, como uma necessidade de ajudar. Apenas isso.).

Ou seja, certas atitudes que temos ou tomamos muitas vezes ficam marcadas nas vidas das pessoas. E isso é real. Tenho em meu coração muitas atitudes bonitas que tiveram comigo. Um amigo que na época que eu tinha uma relação MUITO conturbada com meu pai, me pegava de carro em casa e ficava passeando de carro e conversando comigo. Meu irmão que ao saber que eu estava me separando, foi de carro até Joinville me buscar, sem eu saber – apareceu de surpresa e me “resgatou”. Um ex-namorado que era atencioso em demasia comigo, me dando muito carinho e sorrisos. Minha irmã que sempre está do meu lado quando preciso. Meu cunhado que já me escutou um monte, enquanto me dava carona para ir até a praia nos fins de semana. Enfim… tenho dezenas ou centenas de pequenos gestos e atitudes de pessoas para comigo. Guardo-os todos em meu coração e sei que o que vou levar da vida é justamente isso. Os pequenos gestos. Os detalhes.

Outro exemplo que de certa forma me “chocou” dias atrás. Achei um livro em minha biblioteca que percebi que seria interessante uma amiga ter. Procurei para comprar, mas o livro está esgotado. Procurei em sebos, mas não achei. Então comentei com ela que iria xerocar e dar o livro para ela. Ao que ela me respondeu: “as pessoas dizem que sou generosa, mas você é mais. Apenas me dê o xerox e já fico satisfeita”. Generosa? Eu? Só porque ia dar o livro para ela? Como eu disse: apenas percebi que ela faria um uso bem melhor que eu. Mas vou dar o xerox para ela hehe viu só como não sou tão generosa assim?

Por que tudo isso? Para que este texto? Simples. Cada dia é uma preciosidade na vida da gente. Saia. Sorria, Dê bom dia! Deixe seu mau-humor em casa, embaixo da cama ou, melhor ainda, jogue-o na privada e dê descarga. Porque ele só faz mal para você, para seus parentes, seus amigos, para a sociedade. Olhe nos olhos das pessoas. ESCUTE as pessoas. Observe a natureza ao seu redor. Ame. Independente de retorno do amor. Apenas ame. Mesmo que de longe (muito distante) continue a dar bom dia mentalmente para aquelas pessoas que você ama. Mesmo que não tenha retorno direto, tenha certeza de que este amor vai atingi-las de alguma forma.

Dias atrás fui à minha dentista e disse que estava naqueles dias em que a felicidade pulsava dentro de mim. Que eu via o dia como belo e tudo maravilhoso. E ela me disse: “ah. Você está no momento Poliana”.  Não. É diferente. Poliana é ser otimista, é ver o lado positivo das coisas. O que eu estava sentindo (e tenho sentido cada vez mais – ainda bem) é apenas amor. Um carinho grande pelas coisas, pelas pessoas, pelo sol, pássaros, pelo dia. Não sei dizer como é isso. Mas é uma sensação MUITO boa que espero que se repita muitas vezes. Não deixo de ver as coisas ruins que existem, como o taxista que atropelou a senhora e ainda postou nas redes sociais fazendo piada do fato. Apenas dou mais importância ao que sinto pelas pessoas e natureza… este sentimento de desejo de que todos fiquem bem, de carinho por todos.

Se isso é caridade? Não. Acho que não. Aliás, sou uma das pessoas mais egoístas que conheço, pois ao fazer algo pelo outro me sinto muito bem. Não escute o que os outros falam. Apenas faça o que sabe ser certo. Não por você, mas pelos outros. Viva e deixe viver. Gosto muito desse ditado. Tão verdadeiro!

Para concluir sobre a CARIDADE: nada do que eu disse que faço ou fiz, considero caridade. Quer saber o que acho que é caridade? Então leia o romance “Neve sobre os cedros”, de David Guterson. O que o rapaz faz é que é caridade, na minha opinião. Um amor totalmente desinteressado. Espero chegar lá algum dia.

Para finalizar a crônica do mês: Lembram que eu falei de detalhes? Então, geralmente passam despercebidos, pois estamos na correria do dia-a-dia, sempre com tempo atrasado e com tarefas cada vez maiores para realizar. Pare um pouco. Estique as pernas e os braços. Respire fundo. E coloque este som para ouvir com tranquilidade. Foi na correria do dia-a-dia que ele me chegou dias atrás (através de uma postagem de uma pessoa incrível: Larissa, da practice). E o encanto que senti perdura até hoje, e se fortalece toda vez que escuto de novo. Pois parece um coral de fadas que foi condensado em um simples inseto. Um inseto que sempre me fascinou (principalmente pelas histórias que eu ouvia de que ele era engaiolado e usado como de estimação no Oriente). Hoje me pergunto se eles sabiam da generosidade dele ao cantar para nós. Um grilo. Um detalhe quase insignificante diante da Natureza imensa ao nosso redor. E ele é capaz disso. Do que seremos capazes então?

grilo

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.