Blog

Arquivo de outubro de 2013

Tenho, logo existo!

Por Toda Letra em 16 de outubro de 2013

Existir. Palavrinha estranha que permite que reconheçamos (ou não) os outros ou as coisas. De que forma existimos? De vários jeitos. Alguns deles, mais comuns hoje em dia, sem contar o nome e o sobrenome.

Dígitos. Quanto mais dígitos a pessoa tiver, mais ela existirá – e não estou aqui falando de idade. Já se foi a época em que as pessoas com mais idade eram mais respeitadas. Hoje em dia, os idosos não são centro das atenções e suas histórias repetitivas como discos arranhados apenas prolongam uma dor arrependida de termos dado atenção, de termos colocado a agulha nas primeiras ranhuras com um simples “Olá, como vai?” provocando com isso o início do derramamento da areia na ampulheta de anos empoeirados. Cada pedrinha da areia uma doença, uma dor, um arrependimento, uma reclamação…

Não. Estou falando aqui de outros dígitos. Os dígitos monetários. Como no verso de Trilussa, estou falando daquele indivíduo, aquele “um”. Que se transforma após ter vários zeros seguindo-o. Quanto mais zeros seguindo o “um”, mais ele terá outros zeros que o admiram, que puxam seu saco, que o elogiam falsamente.

Digital. Mas você também pode existir se estiver ligado a outro digital: o mundo virtual. Uma vez me disseram que se eu não achasse o meu nome no Google, eu não existiria. Como sou curiosa desde pequena (vide Menina Curiosa) fui colocar meu nome no Google. Após breve expectativa, descobri que eu existia para o mundo. Posso não existir para aquele homem que considero fantástico, mas existo para o Google.

Digital. Também existo se tenho outra digital: uma digital que abre portas para mim (literalmente, pois a porta do CELIN só abre após eu inserir meu dedo nela), apesar de por vezes demorar para me reconhecer (então não sou só eu que demoro). Bastam algumas tentativas e logo escuto o som da porta liberando minha entrada. Esta é a mesma digital que está ao lado de meu nome, na minha carteira de identidade. Um labirintozinho de sulcos em um redemoinho.

Então, parece que até que não é difícil existir. Caso você tenha um, ou dois, ou três dos acima citados, você, sem sombra de dúvida… existe!

Mas conheço casos de crianças que não existem. Pequenos brasileirinhos que praticamente nascem trabalhando e – consequentemente – ajudando o país a existir no cenário mundial. Mas que não existem literalmente. E digo isso não somente pela invisibilidade social (a não ser quando estão muito perto do nosso olhar e que seu cheiro é sentido pelos frágeis olfatos acostumados a cheiros de carro novo ou amaciante nas roupas, além de perfumes franceses). Mas também por outros fatores.

Quem são estas crianças?

São brasileirinhos descartados que nos ajudam a saborear uma especiaria maravilhosa: castanhas de caju.

Devido ao processo de fabricação da castanha estes seres inocentes, sem infância, perdem toda e qualquer chance de existirem. São seus dedos que deram origem aos vários nomes citados anteriormente: dígitos, digital. São seus dedos que tiraram a possibilidade de existirem. Os dedos que deviam estar ocupados com pipas, bexigas, guidão de bicicleta, segurar bolas, jogar pedras no jogo da amarelinha.

Estes seres infantis não existem. Nunca existirão. Foram descartados pela sociedade que tanto valor dá ao pensar! E os culpados disso somos cada um de nós! Porque não pensamos sobre isso. Logo, também não existimos como seres humanos!

Se você quer pensar sobre o assunto e pretende fazer algo, leia aqui.

Curioso sobre os dedos trazerem os dígitos e digitais? Veja mais aqui.

Quer ler uma linda historinha sobre o caju? Procure o livro Tempo de caju, de Socorro Acioli, com ilustrações de Maurício Negro (editora Positivo – projeto Zepelim).

*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUCPR – 86) e em Letras (UFPR – 2003). Mestre em estudos literários (UFPR – 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Professora da Universidade Positivo, pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve mensalmente para a Toda Letra.