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Arquivo de março de 2012

Treze livros e um destino leitor

Por Toda Letra em 30 de março de 2012


Wander Lourenço

Desafio aceito, salvo engano coube ao Saraiva explicitar que se ajuizasse a respeito de cada escolha para breve debate e contestação. Logo na votação do primeiro lugar iniciou-se uma polêmica em relação aMemórias póstumas de Brás CubasDom Casmurro e Grande sertão:

Veredas. Expliquei-lhes que, se a lista por mim fosse organizada, eu escolheria o livro de Guimarães Rosa, mesmo que considerasse Machado de Assis um ficcionista de maior calibre do que o escritor mineiro.

Não será preciso dizer que fui acusado de prolixo e contraditório pelos engajados interlocutores de boêmia ocasião. Protestei que o Rosa conseguira suplantar o mestre fluminense ao conceber a mais espetacular fabulação pelo viés da inventividade lírica que, a partir de uma proposição inovadora de âmbito narrativo e linguístico, pairaria sobre o espaço limítrofe entre o sublime e o espanto.

Após mordidas e assopros, consegui ponderar que a medalha de prata seria destinada a Dom Casmurro, por razões que irei retratar no próximo artigo. Porém, a decisão foi difícil pelo que tais Memórias póstumas representariam, no cenário pátrio oitocentista, divisor de águas merecedor de um bronze prateado. O quarto colocado foiMacunaíma, de Mário de Andrade, por sua magnífica releitura das contradições congênitas de uma desvairada nação sem caráter a clamar por macumba e ritos antropófagos. Em quinto lugar ficou Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, seguido de muito perto por Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Neste caso, a justificativa plaus

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Pessoas que leem são mais legais

Por Toda Letra em 27 de março de 2012

Pesquisadores da Universidade de Washington e Lee (EUA) constataram esse efeito com umteste bem simples: colocaram voluntários para ler uma história bem curtinha, fizeram algumas perguntas para identificar o quanto cada um tinha curtido o que leu e aí derrubaram, sem querer querendo, um monte de canetas no chão. O estudo conta que, quanto mais“transportadas”

para dentro da história as pessoas tinham sido, maiores eram as chances de levantarem o bumbum da cadeira para ajudar a recolher as canetas.

A explicação é que quando lemos algo que realmente mexe com a gente, criamos empatiapelos personagens da história — e quanto maior essa empatia, mais propenso a gente fica a ser bacana com os outros na vida real. E você aí, anda lendo muito?

Crédito da foto: flickr.com/ciro

Via Super Interessante

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Último ano para a velha escrita

Por Toda Letra em 20 de março de 2012

Jônatas Dias Lima

Via Gazeta d0 Povo

A partir de 1.º de janeiro de 2013, quem escrever “idéia”, “vôo” ou “mini-saia” estará oficialmente cometendo um erro de ortografia. No Brasil, o prazo de adaptação às novas regras trazidas pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa acaba neste ano e, embora apenas 0,5% do vocabulário usado pelos brasileiros tenha sido afetado, as mudanças ainda não foram completamente assimiladas por estudantes e professores.

O documento foi assinado em 1990 por Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Mo­­çambique e São Tomé e Prín­cipe, com adesão de Timor-Leste em 2004. Modificações posteriores e a falta de consenso entre os países adiaram a promulgação definitiva das mudanças em 17 anos. Quando a última versão do acordo foi finalmente aprovada, em 2008, o governo brasileiro estabeleceu o período de quatro anos para que a sociedade se habituasse à nova ortografia e todos os livros didáticos da rede pública de ensino fossem atualizados.

Reação europeia

“Abrasileiramento” gera críticas

Em Portugal, embora o prazo para adaptação à nova ortografia seja mais extenso – até 2015 –, as críticas ao acordo por parte de editoras e escritores são notoriamente mais intensas. A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros já manifestou publicamente sua preocupação quanto ao possível enfraquecimento das editoras portuguesas nos países africanos e acusa o Brasil de fazer pressão pela unificação.

Outra entidade relevante no setor, a Associação Portuguesa de Linguística, chegou a pedir por meio de nota a suspensão do acordo, alegando que o documento não foi “objeto de análise técnica rigorosa”.

Expressão

Articulistas contrários à mudança difundiram nos meios de comunicação a expressão “abrasileiramento da escrita” para se referir ao acordo ortográfico, argumentando que o número de vocábulos alterados em Portugal (1,6%) é maior do que no Brasil (0,5%), deixando o idioma unificado mais próximo da versão brasileira.

A modificação mais polêmica entre os portugueses foi a abolição das consoantes mudas em palavras como “óptimo” ou “facto”, usadas em grande quantidade de termos comuns ao vocabulário do cotidiano. (JDL)

Interatividade

Você já se adaptou às novas regras ortográficas? Qual a sua maior dificuldade?

Escreva para leitor@gazetadopovo.com.br

As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.

Escolas de todo o país trabalham as mudanças ortográficas desde a promulgação, mas a falta do hábito de consultar dicionários e outras fontes gramaticais parece ser uma das causas do pouco domínio das novas regras. “A maior dificuldade dos meus alunos está no uso do hífen. Isso só se aprende checando a forma certa a cada vez que surge a dúvida”, diz a professora de Produção de Texto do Colégio Acesso Suzelei Carvalho Rosales. Ela conta que ainda vê a grafia de algumas palavras com estranheza e precisa ser cuida

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dosa ao corrigir redações. “Eu sinto falta do trema e do acento circunflexo para diferenciar palavras. Alguns detalhes ainda não são naturais para mim.”

O professor Élio Antunes, do Curso Expoente, reforça a tese de que o grande vilão do acordo ortográfico é o uso do hífen. “Num ditado, a cada cinco palavras que digo, meus alunos erram três por não saber se vai ou não hífen”, conta. Segundo Antunes, é mais comum os vestibulandos optarem por escrever outras palavras que não precisem de hífen do que se empenhar em aprender a norma de uso.

O impacto da mudança tem mais efeito sobre alunos do 5.º ao 9.º ano do ensino fundamental. Alfabetizados com a ortografia antiga, eles tiveram de deixar para trás as normas que haviam aprendido há pouco tempo e aderir às novidades ainda no tempo escolar, usando alguns livros atualizados e outros com edições anteriores ao acordo.

Rede pública

De acordo com a prefeitura de Curitiba, professores, educadores e secretários que trabalham na rede municipal de ensino recebem capacitação específica para as novas regras ortográficas há três anos. “Em 2009, promovemos cursos com carga horária [total] de 12 horas sobre ortografia, todos os dias da semana, nos três períodos do dia”, conta Simone Müller, coordenadora de Língua Portuguesa no Depar­­tamento de Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Edu­cação. Em 2010 e 2011, os cursos continuaram em menor frequência. Neste ano, nenhum encontro ocorreu, mas oportunidades de­­vem ser abertas no segundo se­­mestre.

Na rede estadual, a Secretaria de Estado da Educação informou que o tema é tratado em todos os encontros de formação para professores desde 2009 e que equipes para orientação metodológica são mantidas nos Núcleos Regionais de Educação.

Serviço

No site www.portugues.seed.pr.gov.br há uma seção específica sobre o acordo ortográfico, com as principais mudanças e ferramentas para trabalhar o assunto em sala de aula.

Falta de prestígio da língua motivou o acordo

Embora defensores do acordo ortográfico listem uma série de benefícios que justificam a unificação do português usado em todos os países lusófonos, especialistas envolvidos no debate afirmam que a motivação principal seria o aumento do prestígio da língua portuguesa diante de instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas. Mesmo sendo a sexta língua com o maior número de falantes no mundo, as traduções de documentos internacionais frequentemente deixam a versão portuguesa em segundo plano, privilegiando idiomas como francês, alemão ou italiano – todas com número de falantes inferior ao português.

Duas grafias

Segundo a doutora em Estudos Linguísticos e professora do curso de Letras na Pontifícia Univer­sidade Católica do Paraná Angela Mari Gusso, essa discriminação ocorre porque a língua portuguesa é até hoje a única no mundo ocidental com duas grafias oficiais diferentes. “Isso gera uma série de problemas porque todo texto traduzido para o português, na verdade, precisa ser traduzido duas vezes: uma para o português europeu e outra para o português brasileiro”, considera.

A professora explica que o surgimento de duas versões distintas do mesmo idioma ocorreu porque, no passado, Brasil e Portugal fizeram modificações por conta própria, sem acordos que mantivessem a unidade linguística. “Quando o Brasil adotou o trema, por exemplo, Portugal não o fez. E os países africanos acompanharam a versão europeia”, conta. Na opinião de Angela, logo que a unificação for concluída, as traduções para o português tendem a se tornar mais frequentes.

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3ª Olimpíada de Língua Portuguesa está com as inscrições abertas

Por Toda Letra em 19 de março de 2012

As inscrições para a terceira edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro começam hoje (dia 19) e vão até 25 de maio.

Durante a olimpíada, estudantes de escolas públicas da educação básica e seus professores de língua portuguesa vão trabalhar textos de quatro gêneros literários, todos sobre o tema O Lugar Onde Vivo. Alunos do quinto e sexto ano do ensino fundamental vão desenvolver a poesia; os do sétimo e oitavo ano, textos no gênero memória; os do nono ano do ensino fundamental e da primeira série do ensino médio, uma crônica; e da segunda e terceira séries do ensino médio, um artigo de opinião.

As inscrições serão feitas na página eletrônica Comunidade Virtual, criada para a olimpíada, e que estará disponível na internet na segunda (19), dia do lançamento oficial. O processo tem duas etapas: a primeira é a adesão das secretarias de educação dos 26 estados, do Distrito Federal e dos 5.565 municípios; e a segunda é a inscrição da escola.

Os objetivos da olimpíada são estimular a leitura e o desenvolvimento da escrita entre estudantes da educação básica pública.

No País

Além do lançamento nacional da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, os organizadores programaram um calendário de lançamentos regionais entre 30 de m

arço e 24 de abril.

Dia 30 de março, será em Goiânia; 3 de abril, em Curitiba; 10 de abril, em Belo Horizonte; dia 13, em Fortaleza; dia 18, em Salvador, e dia 24, em Belém.

Dividida em etapas, a seleção de textos dos alunos começa na escola, depois acontece no município, no estado, na região e por último em âmbito nacional.

Farão parte da premiação: medalhas, obras literárias, microcomputadores, aparelhos de som portáteis, entre outros. No final do concurso, os promotores da olimpíada entregam prêmios a 20 estudantes e 20 professores, mas nas fases intermediárias também há prêmios para alunos, docentes e escolas.

Trajetória

Em 2008, a olimpíada se tornou política pública de educação, sob a coordenação do MEC, em parceria com a Fundação Itaú Social e o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

A olimpíada teve origem no programa Escrevendo o Futuro, desenvolvido pela Fundação Itaú Social entre 2002 e 2006, em edições bienais, que contaram, naquele período, com a participação de mais de 3,5 milhões de alunos em todo o País.

Na segunda edição, em 2010, a olimpíada de português teve a participação de mais de 7 milhões de alunos da educação básica, sendo 60,1 mil de escolas públicas e 239,4 mil professores.

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Últimos dias para se inscrever na Oficina de Romance com o escritor Milton Hatoum

Por Toda Letra em 15 de março de 2012

Nos dias 26, 27 e 28 de março, a BPP promove oficina de Romance com o escritor amazonense Milton Hatoum. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas até o dia 16 de março pelo e-mail oficina@bpp.pr.gov.br. Para se inscrever, os interessados devem enviar um breve currículo.
De acordo com Hatoum, a atividade será um breve curso sobre o romance composto por três seções e que pretende abordar as noções básicas referentes a este gênero literário. Dessa forma, não haverá produção de textos ao longo da oficina. Cada seção constará de uma exposição sobre o tema abordado e de um debate com os participantes. Os tópicos a serem trabalhados são:- O gênero como convenção: diferenças básicas entre romance, novela e conto.
- O narrador: quem conta uma história?
- As relações entre o narrador, as personagens e a matéria narrada.
Esta é a primeira edição da Oficina BPP de Criação Literária em 2012. Até dezembro, outras oito oficinas serão realizadas, sobre os mais diverso

s gêneros literários, como conto, crônica, texto dramático e poesia.

O autor - Milton Hatoum nasceu em Manaus em 1952, estudou arquitetura e ensinou literatura brasileira nas universidades do Amazonas e da Califórnia, nos Estados Unidos. Estreou na ficção com “Relato de um certo Oriente” (1989), que recebeu o prêmio Jabuti de Melhor Romance, assim como os seus livros posteriores: “Dois irmãos” (2000) e “Cinzas do Norte” (2005), todos publicados pela Companhia das Letras. Hatoum também já foi agraciado com os prêmios APCA, Bravo! e Portugal Telecom. O autor foi traduzido para diversas línguas e é publicado nos Estados Unidos e na Europa.

Programação das oficinas:
Abril: Jornalismo Literário — Sergio Vilas-Boas
Maio: Texto Dramático — Felipe Hirsch
Junho: Crítica Literária — Luís Augusto Fischer
Julho: Poesia — Eucanaã Ferraz
Agosto: Crônica — José Roberto Torero
Setembro: Conto — João Anzanello Carrascoza
Novembro: Roteiro de Cinema — Tabajara Ruas
Dezembro: Jornalismo Cultural — João Gabriel de Lima

Serviço

Oficina BPP de Criação Literária – Romance, com Milton Hatoum.
Dias 26, 27 e 28 de março de 2012, das 14h às 18h.
Inscrições: até 16 de março de 2012, pelo e-mail oficina@bpp.pr.gov.br
Inscrições gratuitas. Vagas limitadas.

Fonte: SEEC

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A falta de acento e o bico do príncipe

Por Toda Letra em 15 de março de 2012

Fernando Molica*

O príncipe Harry engarrafou o trânsito e, à sua revelia, ajudou a ressaltar um problema na língua portuguesa. Para noticiar a confusão gerada por sua ida do Tom Jobim à Zona Sul, um jornal registrou na Internet: “Harry para o trânsito”. A manchete era curta, informativa, correta. O problema é que nem todo mundo dá bola para a papagaiada daquela espécie de escola de samba britânica que apresenta sempre um enredo manjado, baseado em historinhas de príncipes e princesas. Muita gente se lixa para a Unidos da Rainha, não quer saber do desfile deste ou daquele coroado. Ao ler a tal manchete, uma dessas pessoas pode ter achado que um sujeito chamado Harry estaria cotado para assumir a presidência da CET-Rio: “Harry para o trânsito”.

A culpa é do acordo ortográfico que, sob a desculpa de uma unificação, criou uma versão do idioma português que comete o disparate de desassociar grafia e pronúncia, como na eliminação do acento agudo de “pára”. Há casos mais graves, como ressaltou outro dia um internauta. Quando lemos “Justiça para o Brasil”, não sabemos se se trata de uma campanha ou de uma constatação. O trema era a tradução da necessidade de fazermos bico para falar “consequência”. Foi-se o trema, ficaram o bico e a importância de ter alguém que explique a futuros falantes a obrigação

de se emitir um som não explicitado na palavra escrita. Também foi jogado para o espaço o acento que indicava o som aberto em “paranoia”.

A unificação virou piada de brasileiro. Ontem, o jornal português ‘A Bola’ assim reproduziu a frase em que Romário relacionava a saída de Ricardo Teixeira da CBF à extirpação de um câncer: “Eliminámos um cancro” — repare no acento agudo. “Factos”, assim, com “c”, continuam a ser publicados no ‘Diário de Notícias’, que também não abre mão de chamar de “selecção” o time, digo, a equipa nacional.

Jornais têm a obrigação de apresentar fatos de maneira objetiva, não podem abrir mão do compromisso com a clareza, são obrigados a evitar a dubiedade. Em nome desses princípios, deveriam articular um pacto de desobediência civil e recuperar o uso, pelo menos, dos acentos diferenciais. Seria um bom começo, facilitaria a vida dos leitores e até a do Harry — vai que ele aceita o pedido de casamento feito por uma repórter de O DIA e seja obrigado a aprender português. Ficará feliz em saber o motivo de fazer biquinho quando, numa churrascaria rodízio, pedir mais uma linguiça.

Fernando Molica é jornalista e escritor. Reproduzido de O Dia.

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